22.2.08

Entrevista de Mungiu a jornal brasileiro

Reproduzo, a seguir, artigo contendo entrevista com Cristian Mungiu, intitulado Filme do cineasta romeno Cristian Mungiu estréia no Brasil, assinado por Silvana Arantes e publicado em 24 de janeiro de 2008 pelo jornal Folha de S. Paulo:

O cineasta romeno Cristian Mungiu diz que, desde que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em maio passado, com o drama sobre o aborto "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", não consegue ter "idéias criativas". Motivo: "Estou viajando sem parar e, para ter idéias, é preciso ficar um pouco quieto".

Mungiu falou à Folha, por telefone, do Japão, um dos 60 países onde o filme está sendo lançado.

Apesar do interesse mundial que a vitória em Cannes naturalmente despertou para o filme de Mungiu e, por extensão, para a ainda frágil cinematografia da Romênia, a Academia de Hollywood lhe negou uma vaga na disputa ao Oscar de filme estrangeiro.

A recusa "doeu", confessa o cineasta, que recebera seu prêmio em Cannes como uma vitória dos "pequenos cineastas, dos pequenos países" sobre os filmes com " grandes orçamentos e grandes estrelas".

Folha - Ao receber a Palma de Ouro, o sr. disse que o prêmio era uma "boa notícia para os pequenos cineastas, dos pequenos países", porque demonstrava não ser mais necessário "fazer filmes com grandes orçamentos e grandes estrelas" para atingir as platéias. Isso quer dizer que o sr. não tem intenção de trabalhar em Hollywood? Mudou de idéia desde então?
Cristian Mungiu - Depois de um filme, você nunca sabe exatamente o que vai fazer. Minha preocupação é encontrar outra história que eu queira contar, que tenha a ver comigo. Por isso, acho que será uma história romena. Acho que os diretores deveriam se dedicar às histórias que saibam contar melhor. Não tenho nada contra filmes com atores famosos, mas, no caso deste meu filme, sabia que podia prescindir disso.

Folha - Considerando que sua geração não encarou o aborto por uma perspectiva moral, conforme o sr. declara, a experiência pessoal na qual baseou o roteiro de "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" foi perturbadora no momento em que ocorreu?
Mungiu - Soube cinco anos depois de ter ocorrido. Ocorreu há 20 anos. A experiência de ouvir uma história assim é das mais frustrantes, porque não há mais nada que você possa fazer. A princípio, agi como as personagens do filme. Pensei: nunca vou falar sobre isso. Mas chega uma época da vida em que você tem de se confrontar com o próprio passado. Fiz isso nesse filme de uma tal maneira que, honestamente, hoje mal consigo distinguir o que é ficcional e o que é documental, conforme a história que ouvi.

Folha - Que relação tem essa experiência pessoal com o panorama político da Romênia socialista, tema de seu novo projeto?
Mungiu - Por mais que a gente queira pensar o contrário, somos o resultado da maneira como crescemos e fomos criados. Eu sou fruto da geração do baby boom [quando a proibição do aborto na Romênia resultou no aumento da taxa de natalidade]. A proibição do aborto foi um dos temas mais importantes da minha geração. O modo como vivemos a nossa adolescência está relacionado a isso. É claro que é mais fácil justificar suas atitudes dizendo que você está lutando pela sua liberdade. Mas não acho que, por isso, você deva minimizar as conseqüências.

Folha - O sr. pretendeu fazer um filme antiaborto?
Mungiu - Não acredito em educação impositiva. O filme mostra a história, com todos os seus lados. Não toma partido.

Folha - Parte da crítica desaprova sua opção de exibir a imagem do feto. Por que optou por ser explícito?
Mungiu - Quando escrevi o roteiro, não tinha certeza se iria ou não mostrar essa imagem. Na edição, havia alternativas. Mas, pelo modo como fizemos esse filme, percebi que a coisa mais desonesta que eu poderia fazer com o espectador seria não deixá-lo ver o mesmo que a personagem via naquela hora. Todo esse filme foi feito tentando evitar a idéia de manipulação. Buscamos um estilo em que o nosso ponto de vista, da equipe que filmava, não se impusesse como intermediário entre a história e o espectador.

Folha - A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood rejeitou a candidatura de "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Doeu?
Mungiu - Quando você tem expectativas, dói [a derrota]. E nós tínhamos expectativa, por puro desconhecimento de como as coisas funcionam em Hollywood. "4 Meses..." teve grande atenção da imprensa nos EUA e foi apontado por muitos críticos de lá como o melhor filme estrangeiro do ano. Pensávamos que havia uma relação entre o gosto dos jornalistas americanos e o gosto dos membros da Academia. Não há.

Folha - O sr. costumava dirigir comerciais na Romênia. Ainda faz esse tipo de trabalho?
Mungiu - Desde Cannes não dirigi mais comerciais, não porque eu tenha decidido parar de fazer isso, mas por absoluta falta de tempo. "4 Meses..." foi vendido para 60 países, e eu priorizei o trabalho de promovê-lo. Afinal, não esqueci por que fiz esse filme: eu ia ao cinema, detestava os filmes e tinha vontade de fazer um filme que as pessoas fossem gostar de ver.

Folha - Quais eram os filmes que o sr. via e detestava?
Mungiu - Eram filmes de todos os gêneros. O que odeio são filmes pretensiosos, complicados, chatos. Não acho que um filme tenha que fazer o espectador querer sair da sala, mas sim deixá-lo grudado na cadeira.

Folha - Qual é sua relação com o cinema brasileiro?
Mungiu -A última coisa que vi foram os três minutos da contribuição de Walter Salles para [o longa coletivo em homenagem aos 60 anos do Festival de Cannes] "Cada um com seu Cinema". Gosto de "Cidade de Deus", um filme forte, poderoso e, que eu me lembre, o único filme brasileiro que passou na Romênia nos últimos dez anos.

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