27.1.10

Steinhardt em português

Transcrevo, a seguir, artigo intitulado Memórias de um mártir cristão no inferno do totalitarismo, de autoria de Felipe Cherubin, publicado em 17 de janeiro de 2010 pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O Diário da Felicidade, de Nicolae Steinhardt (1912-1989), é uma surpresa no circuito editorial brasileiro. Afinal, por que publicar um livro de memórias de um monge ortodoxo romeno aqui desconhecido? Primeiro, porque O Diário da Felicidade é um documento histórico, esforço pessoal do monge Nicolae para preservar a dignidade humana e manifestar resistência espiritual por meio da literatura, sendo uma resposta ao fenômeno totalitário, isto é, da capacidade humana de resistir e realizar sua plenitude, mesmo diante de intensa privação. Segundo, O Diário é uma obra-prima literária que transita por uma lista infindável de autores da cultura humanística, num verdadeiro espírito de abertura intelectual. Texto confessional na tradição socrático-agostiniana, nele a preservação da memória e a confissão sincera são aspectos indissociáveis que moldaram a vida e o pensamento do monge e revelam, sobretudo, o lado mais perverso da cultura e da política romena sob o regime comunista, entre 1947 e 1989.

Steinhardt conviveu com importantes intelectuais romenos, como Noica, Eliade, Chimet, Cioran e Ionesco. Recebeu reconhecimento do papa João Paulo II, admirador de sua obra.

As ideias que desenvolveu não se reduzem apenas ao universo romeno. Sua grande lição é que o totalitarismo, como fenômeno universal, muda de nome, mas sua natureza persiste - o fato é que a liberdade humana sempre estará diante desta ameaça.

Assim, Steinhardt não fica apenas no relato autobiográfico. Seu diário revela uma visão libertária, apresentada de forma fragmentada no decorrer do texto (por meio de flashes entre o passado e o futuro) e segue, surpreendentemente, um fio condutor coeso, que dá unidade à cosmovisão proposta e vivida pelo autor.

Essa unidade, em linhas gerais, está disposta, primeiramente, por meio da conversão de Nicolae ao cristianismo e da própria essência do que é ser cristão e, secundariamente, pela lição apresentada na forma de três soluções para o homem resistir diante da mais dura opressão, ilustrada por fatos biográficos da tríade Solzhenitsyn, Zinoviev e Churchill. As soluções, supostamente simples, são difíceis de seguir: seus escritos são uma lição de como guiar a si mesmo num cenário desesperador, dominado pelo niilismo e o absurdo.

Em O Diário da Felicidade, fica claro que Steinhardt desenvolve seu pensamento colocando o problema de Deus não em aspectos teológicos, mas antropologicamente, como drama do homem concreto - dessa maneira, são acolhidas as ideias de Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Thomas Mann, Franz Kafka e, principalmente, Dostoievski, pensadores que trataram da questão existencial, do pecado e da redenção. Citando as lições de Dostoievski, Steinhardt faz uma interessante defesa da condição humana, fundada no livre-arbítrio, apontando o mal não como criação divina, mas consequência da liberdade humana.

A grande contribuição do seu diário é resgatar a mensagem cristã original, desmistificando aquela visão do cristão como um homem recluso, pudico, que renuncia à vida da matéria em nome da conquista do paraíso. O cristianismo existencialista de Steinhardt está com os olhos no presente, em contato constante com a mundanidade e as vicissitudes da vida. É o cristianismo que agrega e abriga e que vive com o a mente e o coração em Deus, mas com os pés no chão.

No pensamento de Steinhardt, em que vida e política são indissociáveis, voltamos ao velho ideal platônico da República, isto é, devemos cultivar a virtude privada para não cairmos no vício público, procurando, assim, equacionar de um lado a lei e a ordem da vida civil e, de outro, a esfera da liberdade individual, evitando a domesticação totalitária e a anarquia.

24.1.10

Steinhardt no Brasil: entrevista

Transcrevo, a seguir, artigo intitulado O monge que achou a liberdade na prisão, de autoria de Antonio Gonçalves Filho e Felipe Cherubin, publicado em 17 de janeiro de 2010 pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O Diário da Felicidade, primeiro livro do monge ortodoxo romeno Nicolae Steinhardt publicado no Brasil, chega às livrarias para apresentar ao leitor um autor praticamente desconhecido. Steinhardt, no entanto, foi um dos pensadores mais intrigantes da cultura romena no século 20. Nascido em Bucareste, no seio de uma família judia, teve formação jurídica e logo se tornou crítico literário, manifestando profunda erudição.

Steinhardt publicou pouco em vida. São textos que se resumem a análises literárias - com exceção de O Diário, sua obra-prima -, legado de uma vida que testemunhou o lado mais sombrio da cultura e da política romena.

Em 1960, Steinhardt, interrogado pela Securitate, polícia ideológica do regime comunista romeno, recusou-se a colaborar como testemunha de acusação no processo movido contra um grupo de intelectuais, entre eles seu melhor amigo, o filósofo Constantin Noica.

A sua recusa lhe custou a pena de 12 anos de trabalhos forçados, dos quais cumpriu 4. Convertido ao cristianismo na prisão, ele foi libertado em 1964, retirando-se para a vida no mosteiro.

Publicado pela É Realizações (554 páginas, R$ 110), O Diário da Felicidade foi traduzido por Elpídio Mário Dantas Fonseca, estudioso da obra de Steinhardt. A seguir, o tradutor fala, em entrevista exclusiva concedida ao Estado, sobre o livro.

Certas passagens do livro marcam uma mudança formal na linguagem de Steinhardt, considerando que num dos primeiros livros, À Maneira...de Cioran, Noica, Eliade, ele emulava o estilo de outros autores. Steinhardt buscava deliberadamente essa imitação ou um caminho próprio? Qual a sua conclusão sobre a sua construção estilística?
A construção estilística dele revela um autor com o completo domínio da língua. Então, propositadamente, procurei manter o nível elevado onde era elevado e o nível vulgar onde era vulgar. Algumas vezes ele emprega palavrões, expressões cruas, estão assim no romeno. Minha ideia foi a de manter em português a mesma construção original.

É difícil entender o enredo da obra e da vida de Steinhardt sem o conhecimento prévio de sua relação com Constantin Noica, amizade, aliás, que o levou à prisão. Que tipo de envolvimento ele teve com o filósofo?
Steinhardt e Noica foram alunos do filósofo romeno Nae Ionescu, além de terem feito parte de uma geração de grandes intelectuais - Emil Cioran, Eugène Ionesco e Mircea Eliade. Eles tinham uma grande amizade e o próprio Steinhardt considerava Noica um segundo pai, que o fez nascer de novo, apontando o mosteiro onde passou seus últimos anos. O crítico Virgil Bulat, aliás, considerava suas obras filosóficas complementares. A vida de Steinhardt está intimamente ligada à de Noica, um dos muitos intelectuais romenos que confrontaram o regime instalado em seu país e passaram a ser perseguidos, tendo obras censuradas. O simples fato de se falar mal do regime em reuniões levou o governo a infiltrar nelas espiões e controlar o movimento dessas pessoas. Isso provocou a prisão de 22 intelectuais em 1958, entre eles Noica. O último a ser encarcerado foi Steinhardt, de quem exigiram que fosse testemunha de acusação do grupo, mas, a despeito de ter sido traído por todos os amigos, não traiu ninguém.

O título do livro de Steinhardt é curioso. Por que O Diário da Felicidade? O que era a felicidade para Steinhardt? Como lidar com esse paradoxo da noção de felicidade num período de quase meio século de memórias marcado por fatos sombrios?
A felicidade para Steinhardt está fora do tempo, independente do ambiente circundante. Ele a encontra nas piores situações. Ela está fundamentalmente associada à conversão ao cristianismo. Steinhardt diz que são os anos mais felizes da vida dele, pois foi a prisão que o levou ao cristianismo, do qual vinha se aproximando havia muito tempo. Mas foi a possibilidade de morrer sem ser batizado que o levou à conversão.

O Diário da Felicidade recorre a um estilo literário confessional, em que a preservação da memória e a sinceridade são eixos que desenrolam a narrativa da biografia de Steinhardt. A que tradição ele estaria filiado?
Ele está numa linha direta com Santo Agostinho, isto é, a confissão cristã do abrir-se totalmente diante Daquele que tudo sabe para que possamos saber ainda mais acerca de nós mesmos.

É possível classificar O Diário como um testamento político, uma resposta contra o fenômeno do totalitarismo?
Sim. Steinhardt se concentrou em problemas que Constantin Noica, por exemplo, acreditava serem menores. Noica teve uma preocupação de resgatar o passado e dirigir-se ao futuro em suas aulas de filosofia, afastando-se de um mundo que o repelia, ao passo que Steinhardt não. Ele dá o testemunho diante das condições mais desfavoráveis, põe em prática aquilo que aprende da filosofia e da religião. Então, as palavras dele são cheias de sentido. Tudo o que ele diz nesse livro foi vivido, não foi da boca para fora.

Levando em conta o grande número de citações de filósofos e escritores existencialistas, em que medida o cristianismo de Steinhardt foi marcado pela leitura de Sartre ou Camus?
O que eu posso dizer, de forma geral, não só em relação ao existencialismo, mas a respeito de uma série de outras teorias e confissões religiosas do livro, é que o cristianismo, como mostrado por Steinhardt, é o verdadeiro cristianismo e não a caricatura com que estamos acostumados a ver. Ele analisa, apanha o que importa e rejeita o que não interessa.

Mas, como cristão, Steinhardt cita uma série de autores que poderiam, de certo modo, serem entendidos como seus antípodas, entre eles Jean Genet. Por que Steinhardt, curiosamente, se concentra em autores fora da tradição cristã?
Em relação a outras personagens que Steinhardt cita em O Diário da Felicidade, ele busca aquilo que em determinado momento expressa o comportamento cristão. Na verdade, o cristianismo abrange tudo isso - abrange e supera - então, não é simplesmente pelo fato de alguém ser anticristão que tudo aquilo o que ele diz será 100 % errado. É exatamente aquilo de colher o que importa. Essas pessoas não ficaram cegas para tudo. É o próprio divino que fala com cada um de nós. É isso que Steinhardt identifica nessas pessoas.

Steinhardt, ao longo de sua vida, esteve diante de pelo menos duas grandes ameaças: primeiro, o antissemitismo por causa de sua origem e o comunismo romeno. Como isso o afetou?
Em relação ao antissemitismo, Steinhardt, ao entrar no mosteiro, escreve uma pequena autobiografia na qual diz que não sentiu de perto esse preconceito já que o pai, engenheiro e herói da 1ª Guerra, era o que se chamava de judeu de segunda classe - havia separações nessa época, sendo os judeus de primeira classe os grandes industriais, e os de segunda classe, profissionais liberais. Então, ele não sentiu o antissemitismo, ainda mais pela proximidade da família dele com cristãos ortodoxos - na verdade, ele passou a sentir que era repelido pela comunidade judaica após sua conversão ao cristianismo. No caso do comunismo romeno e do totalitarismo em geral, ele tem um livro em que mostra quando começam os sinais da corrupção do Direito. Steinhardt identifica isso no fim do século 19, na Sorbonne, produzindo um livro para repudiar essas novas tendências do Direito à luz do Direito Constitucional tradicional.

Em que linha filosófica você colocaria o trabalho de Steinhardt?
Numa linha direta socrática com um ponto alto em Santo Agostinho, no sentido de ser um pensador que retoma a filosofia e passa a vivê-la, colocando em choque concepções que antes eram tidas como certas, ou seja, a filosofia tomada a partir da vivência real e concreta - aquela que está em busca da sabedoria.

Embora Steinhardt seja um monge, ele tem uma forte ligação com a modernidade, apresentando em seus textos considerações sobre ciência e tecnologia. Como ele se relaciona com elas?
Esse é um lado que foi esquecido por alguns cristãos hoje em dia, do papel do cristianismo na formação do Ocidente, e especificamente a Igreja Católica, que perdeu a hegemonia cultural na modernidade. Eles deixaram de estar a par daquilo que acontecia, de serem sacerdotes, não só do ponto de vista ritual, mas também intelectual. A tecnologia e as ciências nunca podem ser contrárias à realidade, elas partem do pressuposto do real. É a abertura do pensamento de Steinhardt à realidade, própria do cristianismo, que foi perdida.

Nicu-Aurelian Steinhardt, filho de mãe romena e pai judeu, nasceu na Romênia em 1912. Seu pai, engenheiro e arquiteto, foi herói da 1.ª Guerra Mundial. Por linha materna, Steinhardt era parente do psicanalista austríaco Sigmund Freud, a quem costumava visitar em sua juventude. Formado em Direito, frequentou também o curso de Letras na Universidade de Bucareste. Estreou cedo no universo literário, colaborando com algumas publicações. Sua primeira obra a vir a público foi um pequeno volume de posição "liberal-conservadora", escarnecendo tanto das manifestações da nova direita e elitistas quanto as da esquerda. Entre os parodiados estavam Constantin Noica, Emil Cioran, Mircea Eliade, Petru Comarnescu e Geo Bogza. Foi grande amigo do filósofo Constantin Noica e conviveu com os principais intelectuais romenos do século 20.

10.12.09

Corre... porque faz frio!

Deficiente visual de nascença, o jornalista Marcos Lima [na foto, diante do Palácio do Parlamento em Bucareste, o maior edifício civil do planeta] gosta mesmo é do seu trabalho como vice-presidente da Urece Esporte e Cultura, uma organização sem fins lucrativos que desenvolve atividades esportivas e culturais, no Rio de Janeiro, para pessoas com deficiência visual. O carioca chegou este ano a Bucareste justamente no dia do seu aniversário e não quer mais partir. E os motivos estão longe de ser profissionais. Leia abaixo algumas impressões sobre a Romênia que o jovem brasileiro teve a gentileza de repartir conosco.

A primeira vez que ouvi falar em Romênia foi durante a Copa de 1994. Amante de futebol e de nomes diferentes, logo adotei o time comandado por Hagi, muito bem coadjuvado por nomes como Petrescu, Popescu e outros Escus que ganharam ainda mais o meu apreço ao mandarem a Argentina, nossa eterna rival no futebol, de volta para a casa mais cedo. Depois ouvi que Drácula, que eu nem sabia quem era direito, fora na verdade um príncipe romeno. E eu, que adorava decorar as capitais do mundo, fixei que Târgoviste um dia fora a capital do antigo principado da Valáquia.

Quinze anos depois, os caminhos da vida e do coração me trouxeram a Bucareste. Essa semana, dois dias depois de ter visitado Târgoviste, voltava do estádio Ghencea, onde o Unirea Urziceni (treinado justamente pelo Dan Petrescu da minha infância) havia batido heroicamente o Sevilla pela Liga dos Campeões. E, caminhando pelas ruas da capital romena, ansioso para chegar em casa e aquecer-me, me lembrava das várias vezes em que, no mesmo horário, regressava à casa depois de um jogo no mítico estádio do Maracanã. O clima naquelas ocasiões era mais agradável, sem dúvida, mas ainda assim corríamos, porque temíamos uma emboscada a cada esquina. E foi aí que eu me dei conta do quanto eu gosto de Bucareste.

Não sei, a língua romena é muito bonita, as pessoas são simpáticas e até prolixas na hora de dar informação, o sistema de metrô é muito mais abrangente que o do Rio de Janeiro... Mas eu acho que a grande coisa aqui é a segurança. Claro que é possível que te furtem a carteira, mas o principal é que aqui a gente não vive com medo. Muitas vezes cheguei de viagem em Bucareste mais de meia-noite, esperei táxi na rua e ninguém me disse para ter cuidado.

Claro que na Alemanha, país onde estive por algum tempo este ano, as cidades são tão ou inclusive mais seguras do que aqui, mas se considerarmos que a Alemanha é um dos países mais desenvolvidos no mundo e que os IDH de Romênia e Brasil são bastante parecidos, o fato de Bucareste ser mil vezes mais segura que o Rio de Janeiro é algo que chama a atenção. Chegar em casa depois disso e ler que os ônibus da Linha Amarela mudaram o trajeto porque os traficantes os estavam sequestrando e os levando para as favelas, ou que o helicóptero da polícia de cinco milhões de dólares foi derrubado ou que Vila Isabel e vizinhanças pararam por causa de uma guerra entre traficantes no Morro dos Macacos, tudo isso me dá uma vergonha danada.

Se compararmos Rio de Janeiro e Bucareste em termos de belezas naturais, a capital romena sai em flagrante desvantagem. Bucareste não tem Cristo, não tem mar, não tem Baía de Guanabara, Pão de Açúcar, Maracanã, Copacabana... Nem dentro da Romênia Bucareste é o principal destaque turístico. Mas o número de assassinatos aqui por ano é estimado em 24, ou seja, a mesma quantidade de uma calma noite carioca. Tenho que confessar que fiquei constrangido ao mostrar o filme Tropa de Elite à minha namorada romena, simplesmente porque não pude concordar quando ela me perguntou "mas isso só acontece em filme, né?".

E acredite, a Romênia é tão pobre e corrupta quanto o Brasil. Eu amo o Brasil, mas estar aqui e viver isso me faz pensar que a gente tem que parar de culpar os outros pelas coisas que acontecem com a gente. Não é a pobreza a causa da violência, porque Bucareste é também uma cidade pobre, em que creio a média dos salários é mais baixa do que em muitas partes do Rio. Eu espero muito que as Olimpíadas de 2016 sirvam pra gente fazer algo contra isso, porque viver aqui tem me dado essa noção. Sempre tinha exemplos de países ricos, mas agora que posso comparar com a Romênia, fiquei com vergonha de coisas que a gente atura no nosso dia-a-dia e pensa que é normal porque nos acostumamos com pouco.

Não tem preço andar na rua sem ter que se preocupar se alguém vai chegar armado e roubar todas as suas coisas. E, de longe é possível ter uma noção maior do quanto a gente vive numa guerra urbana no Rio. Li certa vez sobre uns bandidos que assaltavam edifícios no meu bairro e preocupei-me por minha família, quis saber deles. Aqui, o máximo que pode acontecer é alguém bater sua carteira, o que é uma coisa bem chata, obviamente, mas é algo que você também está sujeito em Nova York, Tóquio, Chicago, Madri, Berlim, etc. Não estou dizendo que a Europa ou no caso específico Bucareste seja o antro da segurança universal, mas simplesmente não existe a possibilidade de bandidos fecharem uma rua e fazerem um arrastão ou derrubarem o helicóptero da polícia com armas de uso exclusivo do exército (a polícia aqui nem precisa ter helicóptero). Não existe a possibilidade de te arrancarem à força do seu carro, com armas na mão e levarem-no, isso quando você tem a sorte de não ser assassinado ao volante. Eu fico pasmo como muitas pessoas não entendem isso, estamos muito dentro dessa guerra urbana e achamos normal não podermos sair de noite ou estarmos com medo sempre.

E essa semana, enquanto voltava do Ghencea, comentava com minha namorada, ela uma fervorosa crítica das coisas que não andam bem na Romênia: "você não tem idéia do quanto é bom viver em um lugar onde você só precisa apressar o passo porque está frio".

1.12.09

O Diário da Felicidade no Brasil

A primeira tradução brasileira de O Diário da Felicidade, de Nicolae Steinhardt, realizada por Elpídio Fonseca e revista por Cristina Manescu, será lançada dia 17 de dezembro de 2009, às 19:00 horas, na sede da editora É Realizações em São Paulo.


Reproduzo parcialmente, abaixo, texto de apresentação assinado pelo tradutor.



"Habent sua fata translationes, ou do porquê traduzi O Diário da Felicidade, de Nicolae Steinhardt?

Coisas há que passam sem ser cridas,
E coisas cridas há sem ser passadas,
Mas o melhor de tudo é crer em Cristo.
(Camões, terceto final do soneto CV)

A pergunta mais do que natural que surgirá ao leitor deste livro é: por que um brasileiro traduziria para o português um livro de um monge romeno aqui desconhecido? E a história, longa, mas que procurarei resumir em algumas linhas, remonta ao ano de 1980: enquanto me dedicava aos estudos de língua portuguesa, vi a indicação de uma gramática romena na série de livros que manuseava e disse: por que não aprender tal língua?

Mas a realização desse plano só se daria dali a 18 anos quando conheci aquela que viria a ser minha esposa e que, num primeiro encontro, me emocionou tanto pela correção com que se expressava em português, que pensei com meu botões: o mínimo que essa moça merece é que eu aprenda a língua dela, se não tão bem quanto ela fala a minha, ao menos num nível que possa homenageá-la.

Indicando ela um curso de auto-aprendizado, com fitas cassetes, qual não foi a minha surpresa quando ela também me recomendou aquela mesma gramática de dezoito anos antes! Comecei o curso por conta própria, e, após seis meses, passei a namorar aquela com quem me casaria. Passado um ano, fiz com ela minha primeira viagem à Romênia, onde pude falar pela primeira vez e compreender sofrivelmente o romeno. Depois disso, com a ajuda de minha mulher, passei a falar razoavelmente.

Eis que um dia de 2004, enquanto ouvia de novo uma aula do curso de filosofia de Olavo de Carvalho, de 1998, atentei para um projeto de que ele falava entre as embaixadas da Romênia e do Brasil, tendo à testa, então, o Embaixador Jeronimo Moscardo, segundo o qual haveria traduções de livros de filosofia romenos em português, e traduções de livros de filosofia brasileira em romeno: faziam parte da lista obras de Mário Ferreira dos Santos, do próprio Olavo de Carvalho, Constantin Noica, Lucian Blaga e Nicolae Steinhardt.

O projeto, de 1998, infelizmente morrera e, dos livros planejados, apenas um, de Noica, As seis doenças do espírito contemporâneo (com tradução de Fernando Klabin e Elena Sburlea, introdução, edição, notas e comentários de Olavo de Carvalho, e revisão técnica de Carlos Nougué, biblioteca de filosofia, Record, 1999), fora publicado. Depois que Olavo de Carvalho terminou de falar, na fita cassete, sobre O Diário da Felicidade, de Nicolae Steinhardt, tive uma iluminação e pensei: ora, sei um pouco de romeno, por que não traduzir O Diário da Felicidade? Vou tomar a peito essa empreitada.

Imbuído da vontade de traduzir Steinhardt, propus esse meu plano ousado à minha esposa, que concordou. Finalmente, em 2006 terminei a tradução e minha esposa entrou em contato com a editora do mosteiro de Rohia, para que este negociasse os direitos autorais do livro com Edson Manoel de Oliveira Filho, esse destemido editor que, desde o primeiro momento em que lhe falei de meu projeto, prometeu-me que publicaria o livro no dia seguinte ao em que eu o entregasse.

Depois de alguns contratempos, minha esposa começou a revisão e, como demorasse a resposta do mosteiro, fomos ela e eu, juntos, a Rohia, em janeiro de 2007, e formalizamos o contrato.

De volta ao Brasil, houve uma espera de quase um ano e meio até chegar assinado o contrato: mal sabíamos que tal demora seria providencial, pois, nesse ínterim, duas novas edições se tinham feito em romeno, aumentando, de muito, o número de notas e de informações, o que só viria a beneficiar o público brasileiro, até agora jejuno de Steinhardt.

Mas não era de se esperarem menores dificuldades, quando se sabe que maiores agruras se abateram sobre Steinhardt, cujos manuscritos do Diário por duas vezes lhe foram confiscados pelo regime comunista da Romênia, obrigando-o a reescrever a obra, para, depois, ver devolvido o primeiro manuscrito.

Hoje, sinto-me plenamente recompensado, pois, envidando esforços superiores às minhas forças, consegui, ao menos em língua portuguesa, atender, sem que o soubesse à época, o pedido que, pouco antes de partir, fizera Steinhardt a seu amigo Virgil Ciomoş:

Sabe, meu caro, faço enorme questão que este Diário apareça. Sem este testemunho público, eu me sentiria culpado diante de Jesus. Gostaria de pedir-te, assim, que retenhas três coisas que te confiarei com língua de morte: 1. Dize a todos que tive fé, de todo o meu coração, em Jesus Cristo, nosso Salvador. Cristo é um grande poder, irmão Virgil, uma grande alegria e uma felicidade ainda maior. A única coisa que ele deseja para nós é fazer-nos felizes. Houve um Instante em que se apiedou também de mim - o inútil - e me tomou para dizer-me que me perdoara. Era em Braşov. Nem sei quanto durou! 2. Dize-lhes ainda que amei sinceramente o povo romeno e que cheguei até a enamorar-me de seus defeitos e 3. toma conta do Diário.

Num Brasil, onde professores de direitos humanos vão fazer curso de especialização na ilha prisão, que é a Cuba do tirano assassino e traficante de drogas que é Fidel Castro, sem se darem conta da incongruência desse ato, este livro servirá de libelo para tirar-lhes a máscara, trazendo-lhe a público o rosto sujo da ignorância ou da conivência.

Elpídio Mário Dantas Fonseca"

Pode ser visto aqui um documentário primoroso, intitulado Arheologia Regasirii, de cerca de uma hora e vinte de duração, realizado por Vasile Alecu em 2006 para a Televisão România Cultural, acerca de Steinhardt e O Diário da Felicidade, entrevistando as principais pessoas da vida deste: o padre Mina Dobzeu, que o batizou, o abade Serafim Man, que o recebeu no mosteiro e o fez monge, Justinian Chira, por intermédio de quem entrou no mosteiro, Justin Hodea, atual bispo e companheiro de mosteiro, Virgil Bulat, companheiro de cela, George Ardeleanu, historiador literário.

15.10.09

Romeno vence concurso brasileiro de haicai

A Associação Cultural Nikkei Bungaku do Brasil, em parceria com o Grêmio Haicai Ipê, promoveu o II Concurso de Haicai Masuda Goga, aberto ao público em geral, com o objetivo de divulgar o haicai e homenagear um de seus maiores divulgadores. Na categoria adulta, o prêmio do segundo lugar coube ao romeno Eduard Tara (foto), com o seguinte poema:

O pátio do asilo -
no meio da solidão
um velho ipê-roxo

Fonte: Maxpress

30.9.09

De Bucareste a São Paulo: 1964-65

Olga Moscovici nasceu em Bucareste em 1948. Morava na Strada Laborator 133, que hoje em dia não existe mais, pois na época de Ceausescu foi derrubado o bairro todo. Ela saiu da Romênia em 1964 e desde então nunca mais voltou, embora tenha muita saudade da cidade natal. Olga chegou ao Brasil em 1965, acompanhada dos pais. Leia abaixo seu emocionante relato, exclusivo para o TPRB, contando sobre sua infância romena, a partida de seu país e o impacto da chegada ao Brasil.

Nasci em Bucareste numa família que sofreu muito por causa do Comunismo, que confiscou todos os bens de todas as pessoas que tinham alguma coisa. Vivíamos uma vida muito sofrida, passando muitas necessidades, fome, frio e também humilhação, já que minha família era judia e eu nasci muito, muito ruiva, o que é um sinônimo de judeu na Romênia. Como criança fui muito discriminada, as crianças me batiam, me apedrejavam e me cuspiam na rua por ser judia. Fome? Era o que mais passávamos. Eu entrava nos quintais vizinhos, junto com outras crianças que vinham de famílias com problemas como eu e roubávamos as frutas das árvores dos vizinhos. Tínhamos por exemplo um vizinho que plantava alface e pimenta dedo de moça. Nós roubávamos alface e pimenta e, para não passar na frente da casa dele, onde ficava a torneira do quintal, comíamos a alface com terra e tudo, assim como fora tirada, para não sermos pegos por ele. E no inverno? Não havia mais frutas. Mas tinha gelo (tzurtzuri de ghiatzã) que comia para ter a sensação que estava mastigando algo. Vestidos? Tinha um só. Quando minha mãe me lavava o vestido, tinha que ficar dentro de casa de calcinha até que ele secasse. Sempre que tinha um sapato novo, tinha um vestido velho e vice-versa. Nunca tive um vestido novo e um sapato novo ao mesmo tempo, NUNCA. Tive um casaco de inverno (palton) que usei dos 5 aos 11 anos. Lógico que já estava surrado e pequeno, pois eu tinha crescido. As mangas não passavam mais do cotovelo, mas tinha que usar daquele jeito, já que era o único casaco disponível.

Recebemos o visto para Israel, mas o meu pai, que já tinha uma irmã no Brasil, queria se encontrar com ela, já que não se viam há mais de 25 anos. O fato de podermos sair da Romênia era mais do que um sonho. Estava flutuando de felicidade. Tinha 17 anos e meus pais tinham apresentado a solicitação para sair do país no ano em que eu nasci. Finalmente chegou o dia D. Nem conseguia acreditar. Vivia um sonho acordada. Era bom demais para ser verdade, levando em consideração que, além de tudo ser muitíssimo difícil na minha vida, não acontecia nenhum milagre e, de repente, era como se vivesse um milagre. Totalmente indescritível a sensação que estava sentindo. Imaginava-me no Brasil casada com um homem rico, com um piano na sala e eu vestida com aqueles vestidos franceses do tempo do Napoleão. É assim que eu via a vida dos brasileiros. Ricos, cultos e gentis.

Chegamos a Nápoles e fomos encaminhados para um hotel, de onde iríamos embarcar para Israel. Só que meu pai queria vir para o Brasil. No meio da noite, fugimos e procuramos a HIAS, uma sociedade internacional que ajudava refugiados de países comunistas. Após ficarmos em Gênova por um ano e meio - pois a entrada de estrangeiros no Brasil havia sido proibida por questões políticas - finalmente embarcávamos para o Brasil no navio Augustus C. Lindo? Não. Maravilhoso. Uma criança que nunca viu nada, nunca teve nada, viajar de navio? Como descrever meu sentimento? Impossível.

Passamos por Barcelona, mas fomos proibidos de descer porque vínhamos de um país comunista. Decepção? Um pouco. Mas como já estava acostumada à discriminação de todos os tipos, aproveitei as regalias do navio para me distrair. E chegou o grande momento: já estávamos no Brasil e - olha só! - pude descer do navio sem ser discriminada por ninguém. Que maravilha de país, que povo maravilhoso, gentil e acolhedor. Como pode existir um povo assim tão bom?

Fizemos uma pequena pausa no Rio de Janeiro. Nem podia acreditar. Como assim? Eu, a Olga pobre, faminta e discriminada, agora estava no Rio de Janeiro olhando aquelas maravilhas e ninguem me xingava? Tinha que me beliscar para ver se estava acordada ou se era um sonho. Nao, não era sonho, era relidade. Aqueles prédios grandes, aquele monte de gente, todo mundo parecia feliz e sorridente, aquelas avenidas grandes. Que maravilha. Eu não conhecia de perto pessoas de cor e aquilo ma fascinou. Tinha um senhor que vendia laranja (que na Romênia não tínhamos) e ele tinha uma maquininha que descascava a laranja. Fiquei por um longo tempo olhando aquilo. Era só ter dinheiro que qualquer um podia comprar. Inacreditável.

Voltamos ao navio para seguirmos para Santos. Saímos do Rio de Janeiro por volta das 23:30. NUNCA MAIS NA VIDA VOU ESQUECER ESTE MOMENTO. Estávamos nos afastando do Rio e eu olhando do navio para a cidade... Como pode existir tanta beleza, tantas luzes. Propagandas que acendiam e se apagavam. Aquele mar de luzes vindo dos prédios, dos restaurantes e dos locais públicos. Não podia ser realidade, mas era. Não consegui mover um único dedinho do lugar enquanto olhava para essa paisagem maravilhosa. E tinha muitos reclames com coca-cola... O que será coca-cola? Na Romênia, "coca" se fala para uma bonequinha ou para uma criança pequena. Mas porque eles tinham que colocar cartazes tão grandes por causa de uma bonequinha? Bom... tudo é diferente por aqui, e então isso também era diferente...

Logo cedo chegamos a Santos, onde a família estava nos esperando. Fomos para São Paulo com uma perua, já que éramos numerosos. Que lugar maravilhoso. Quanto verde. Adoro natureza e via de perto plantas e árvores tropicais. Não queria que este sonho terminasse nunca.

E assim começamos a nossa nova vida, ou melhor, assim começamos a viver como gente. Nascemos eu, meu pai e minha mãe naquele dia em que chegamos a São Paulo. Não importava não termos dinheiro, roupa nem lugar para morar. Só o fato de sermos gente já era suficiente. Eu passei a ser reconhecida como italiana, linda loira(e não ruiva) de olhos azuis e ninguém mais me xingava. Não é uma maravilha?

22.9.09

Viata ca o vacanta... in Brazilia

Laura şi Florian Câmpean sunt doi români pentru care viaţa e mai mult decât muncă, stres şi credit la bancă. Împreună cu Sasha, băieţelul încă nenăscut al cuplului, cei doi au plecat departe de lumea dezlănţuită, la aproape 9.500 de kilometri de Bucureşti, într-un „sat eco“ din sudul statului brazilian Bahia. Ziarul Adevărul vă prezintă, din 7 septembrie 2009, aventurile familiei Câmpean în satul brazilian.

Din Spania in Brazilia

Un român căsătorit cu o tânără braziliană a vizitat de mai multe ori ţara lui Pelé și a decis că e locul ideal pentru a se refugia de criza economică din Spania.

Cristian Bădilă a ajuns în Spania în urmă cu 10 ani, când avea 22 de ani. “Am plecat cu gândul să revin în ţară după ce-mi strâng ceva bani”. A stat un an în Alcalá de Henares, doi ani în Guadalajara, iar ultimii şapte ani i-a petrecut în Tarragona. Aici a cunoscut-o pe actuala soţie, de origine braziliană.

Împreună cu soţia, Cristi a vizitat Brazilia şi a decis că este ţara ideală pentru a investi şi a se retrage după ce va părăsi Spania. “Ne vom muta în America de Sud. Chiar dacă și în Spania avem o casă, pentru care plătim ipotecă, tot în Brazilia ne vom stabili. Acolo nu e greu de găsit un loc de muncă plătit decent. Cu un salariu, echivalent a 300 de euro, noi am putea să trăim liniştiţi”, explică românul.

În ultimii ani, românul şi-a construit, împreună cu soţia, o casă în oraşul Vitória. “Am trimis lunar câte 300-400 de euro și acum deja avem casa ridicată. A fost mult mai uşor să construim în Brazilia, decât în România. Preţurile sunt mai accesibile. Pentru doar 20.000 de euro avem o casă într-un cartier rezidențial”, spune Cristi, hotărât să emigreze pentru a doua oară în ultimii zece ani.

Sursa: articol Cu banii câştigaţi în Spania, un român şi-a ridicat casă în Brazilia din 25 mai 2009, semnat de Olivera Taban si publicat de Adevarul Spania

2.9.09

Nelson Freire em Bucareste

O pianista brasileiro Nelson Freire participará do prestigioso Festival Internacional George Enescu com uma apresentação dia 22 de setembro, às 19:30, na Grande Sala do Palácio Real, em Bucareste, junto com a Orchestre du Capitole de Toulouse. Na ocasião, ele será o solista do Concerto no. 2 para piano e orquestra de Johannes Brahms.

27.8.09

Bucovina brasileira

A origem dos alemães bucovinos está na Baviera, estado autônomo do sul da Alemanha. Da região bávara, emigraram em fins do século XVIII um considerável número de famílias camponesas para colonizar algumas áreas da austríaca província da Boêmia. Em 1838/1840, os descendentes desses camponeses de origem bávara seguiram para a Bucovina, a província mais oriental do Império Austro-húngaro (e parte da Moldávia histórica), hoje dividida entre Romênia e Ucrânia.

Lá, fundaram comunidades e prosperaram; além dos alemães, havia na Bucovina colonos de origem ucraniana, polonesa e húngara, súditos do Império Austro-Húngaro.

Nos anos de 1887 e 1888 os bucovinos emigraram em duas levas para o Brasil, mais especificadamente para Rio Negro, totalizando 377 pessoas divididas em 77 famílias. Na região, os alemães bucovinos (ou austríacos bucovinos, como se afirmam alguns dos mais velhos descendentes) realizaram as tarefas de desbravamento, a começar pela derrubada das matas para o plantio e estabelecimento de sua cultura. Os bucovinos ocuparam largo setor de atividades econômicas conquistando relativa prosperidade, conservando no Brasil suas características específicas: língua (dialeto), tradições, danças folclóricas e culinária.

Um considerável número de imigrantes se instalou no vizinho município de Mafra e alguns ainda em São Bento do Sul, cidade colonizada, em sua maioria, por alemães oriundos da Baviera, da antiga Boêmia e da Floresta Negra.

Rio Negro e Mafra formam juntas a maior colônia bucovina existente no mundo. Faltam, contudo, projetos culturais que garantam a preservação do dialeto bucovino, que diminuiu consideravelmente entre os descendentes. "Tal dialeto é um patrimônio cultural de uma região que, enquanto de língua alemã, não existe mais e sua preservação e promoção é de vital importância para a manutenção da cultura dos emigrantes bucovinos" (ALTMAYER, Everton - Deutsche Dialekte in Brasilien, 2005).

Anualmente é realizada em Mafra a Bukowinenfest, que preserva os costumes dos emigrantes alemães da antiga região da Bucovina. Sempre em julho, a festa é animada com os grupos folclóricos, corais, bandas tradicionais, além dos deliciosos pratos típicos e muita cerveja, que agradam os turistas e os moradores da região.

Fonte: Wikipédia

15.8.09

Um escritor-diplomata sobre a Romênia

O escritor e diplomata brasileiro Jorge Sá Earp (na foto, diante de minha pousada, em julho de 2007, então ainda em construção, na província romena de Suceava), às vésperas de sua segunda partida da Romênia, escreveu o texto abaixo para o Jornal Sidarta, que o publicou em 27 de julho do corrente.

A palavra Romênia ouvi soprada pela primeira vez da boca de meu pai: ele tinha voltado da Europa, na década de 60, e em Roma tinha se encontrado com uma senhora romena, advogada, no hotel em que se hospedaram. Me lembro dos olhos negros dessa mulher num slaide projetado na parede. Olhos que transmitiam uma alegria contida. Se não me engano ela estava vestida de preto. Meu pai contou que ela recebera uma bolsa para estudar na Cidade Eterna e sentia medo, medo de voltar ao seu país por causa do comunismo.

Depois meu pai me explicou que a Romênia era um país cuja língua tinha raiz latina, um país latino rodeado de povos eslavos. Aquilo aguçou minha curiosidade. Coincidência ou não (mon ami le hasard, como disse Colette) vim parar em Bucareste graças à minha profissão em 1999. Para ser mais exato, duas vezes neste país: daquele ano a 2003 e de 2006 até hoje.

Sob a influência do noticiário internacional de que alguns anos antes, Ceausescu, o ditador comunista, tinha destruído toda a parte antiga da cidade (logo eu que adoro antiguidades, vieilles villes), imaginava Bucareste completamente moderna, com blocos cinzentos à maneira dos de Varsóvia, onde também morei nos anos 80. Não estava errado de todo, mas cheguei do aeroporto pela Calea (é quase calle) Victoria, uma da artérias principais da cidade, que exala um charme todo especial de avenida antiga. Antes dei com um Arco do Triunfo e Denisa, funcionária romena da embaixada, me explicou que se tratava de construção de 1918 em homenagem à união dos principados da Valáquia, Transilvânia e Moldávia, que deu origem ao país hoje conhecido como Romênia, nome tirado mesmo de Roma, haja vista o orgulho que nutre este povo por guardar origens no Lácio. Tais origens se devem à vitória da legiões chefiadas pelo Imperador Trajano sobre os dácios no início do século II D.C. e sua consequente ocupação até cerca de 270 D.C. – centúria suficiente para que se consolidasse a cultura latina nesta região da Europa do Leste.

Da Calea Victoria desembocamos na Praça do Palácio Real, hoje Museu de Belas Artes, com excelente acervo que inclui quadros de Tintoretto, Rembrandt, El Greco, Zurbarán e Murillo, belo edifício datado do final do século XIX mas ampliado pelo rei Carol II (o tal que se casou em segundas núpcias no Copacabana Palace no Rio em 1947) na década de 20. Em frente espanta a magnificência do Ateneu Romeno, cartão postal de Bucareste, a Sala Cecília Meireles deles, erguido no ano da abolição da nossa vergonhosa escravatura, ou seja, em 1888. Para completar esse conjunto arquitetônico dei ainda com a Biblioteca da Universidade, prédio de estilo francês do século XIX e com o atual Hilton, cujos atuais proprietários resolveram alterar de maneira sóbria a antiga fachada de um dos mais elegantes hotéis de Bucareste, o Athenée Palace.

Essa a primeira impressão: mais tarde fui conhecer Lipscani, o centro histórico, um tanto mal conservado, que me lembrou a Lapa. Aliás em Bucareste há muitas partes que me recordam Botafogo. O estilo das casas; embora em algumas se perceba uma nítida influência oriental-veneziana, como janelas com arcadas. Falando em estilo, na Romênia existe uma escola arquitetônica bastante própria que é a brancoveana, criado pelo príncipe Constantin Brancoveanu, que vai do meado do século XVII a cerca de 1730, com "loggias" e colunas ornadas de arabescos.

Para finalizar com a arquitetura da capital romena, não posso deixar de mencionar o imponente e maciço Parlamento ou Casa do Povo (Casa Poporului), erigido pelo mesmo Ceausescu que demoliu todo um bairro antigo (e aí a imprensa internacional não exagerou) tendo como pretexto o terremoto de 1977. Até igrejas ortodoxas do século XIII foram abaixo nessa fúria destruidora, exceto uma ou duas, transportadas para outros bairros por meio de uma tecnologia caríssima. Apesar de ser também cartão postal, não posso deixar de expressar minha desaprovação pela sua estatura pesadona e confeitada. É uma espécie de pirâmide de Kéops, a concretização da megalomania de Ceausescu, o segundo maior edifício público do mundo depois do Pentágono, segundo os guias que nos conduzem pelo seu enorme e carregado interior.

Como minha morada é a Literatura, fiquei fascinado com a poesia filosófica de Lucian Blaga (1895-1961). Viajei mesmo até perto de sua cidade natal, na região que abarca a cidade de Sibiu, capital cultural da Europa em 2008 e minha cidade preferida neste país. Por outra coincidência (ou por obra e graça do mesmo caro acaso de Colette) fui morar na Calea Mihai Eminescu, sob a proteção desse grande poeta romântico do século XIX, que para não fugir à tradição da escola, veio a falecer jovem também. Não tão jovem quanto os nossos Álvares de Azevedo e Castro Alves mas com 39 anos, louco, num asilo. Ambos, aliás, estão traduzidos magnificamente para o português.

No final de junho de 2007, fui convidado para a abertura da casa-museu do poeta Stefan Baciu, que viveu no Brasil 40 anos, trabalhou na Tribuna da Imprensa, tornou-se amigo de vários escritores brasileiros como Manuel Bandeira, de quem aliás foi biógrafo, e de Vinícius de Moraes. A embaixada do Brasil doou, na ocasião, à casa-museu os 2 volumes da Enciclopédia da Literatura Brasileira de Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza, onde Baciu se encontra citado.

No teatro tomei conhecimento de Ion Luca Caragiale (1852-1912), considerado o maior dramaturgo romeno, boêmio, frequentador da Casa Capcha, antigo café de intelectuais, hoje restaurante chique, aonde ia vestindo uma écharpe vermelha. Li duas comédias dele: Noite Tempestuosa e A Carta Perdida, traduzidas por Ático Villas-Boas, especialista em Cultura e História romenas.

Ao mencionar o famoso Ionescu, meus amigos romenos torcem o nariz e dizem que é escritor francês, já que escreveu a maioria de suas geniais peças no idioma de Molière. Agora outro que vim a descobrir foi o jovem Matei Visniec. Assisti a uma montagem de obra sua sobre a vida do diretor de teatro russo Meyerhold, que realmente me apaixonou. Texto primoroso e elenco admirável.

Enfim, Bucareste é uma cidade com intensa vida cultural: cinemas, inclusive os de arte como a Cinemateca e o Studio, teatros, a Ópera, o de Operetas, o Nacional, museus etc etc. Capital de um país especialmente bem aquinhoado pela Mãe Natureza com praias ao longo do Mar Negro e a cadeia de montanhas dos Cárpatos, por onde se estendem as florestas da Transilvânia, região cujo nome ressoa misteriosamente no imaginário estrangeiro por causa do famoso personagem do escritor irlandês Bram Stoker, o Drácula (dragão ou demônio em romeno), baseado na figura do príncipe da Valáquia Vlad Tepes, conhecido como o Empalador, por causa desse severíssimo castigo que impunha ao invasor turco. É ali na Transilvânia que está situado, próximo ao vilarejo de Bran, o dito castelo do Drácula, na realidade tão somente posto da alfândega entre aquela província e a Valáquia, mas com o encanto de fortaleza medieval, onde o sanguinário príncipe teria se hospedado apenas uma noite no século XV. Sua cidade natal é a bela Siguichoara, que remonta o medievo, e onde o aparato turístico também atrai os turistas com souvenirs da mais variada espécie, respaldado na lenda criada por Stoker, que ofusca outros lugares bem mais interessantes, a meu ver, deste belo país.

16.7.09

Pod muzical Oradea-Brazilia

Sándor József Thurzö é um violista húngaro natural de Nagyvárad/Oradea, Romênia, nascido em 1943. Iniciou seus estudos com o pai, professor violinista e musicólogo de renome internacional. Após bacharelar-se em sua cidade natal, entrou na Faculdade de Música de Iasi, Romênia. Ao término da faculdade, em 1968, foi nomeado chefe de naipe do compartimento de violas e solista na Orquestra Sinfônica Filarmônica de Oradea. Foi professor de viola e música de câmara durante muitos anos e, desde 1996, é professor docente do quadro de Viola e Música de Câmara na Universidade de Oradea.

Em 1975, fez curso de aperfeiçoamento solístico em Bucareste, onde obteve o qualificativo máximo. Realizou mais de 2300 concertos como solista e músico de câmara em 9 países: Romênia, Hungria, Alemanha, França, Polônia, Itália, Portugal, Japão e Brasil. Realizou aproximadamente 250 programas, onde foram incluídas várias peças brasileiras. Foi vencedor de vários concursos nacionais. Fundou diversos grupos de câmara, como o Quarteto de Cordas “Varadinum”, o Duo Violino-Viola, o Quinteto Amizade, o Trio de Cordas “Venczel Pichl”, a Orquestra de Câmara “Carl Ditters von Dittersdorf” e a Universidade Húngara “Partium”. Uma centena de peças foram dedicadas a ele por compositores da Romênia, Hungria, Alemanha, Noruega, Suíça, Japão e Brasil. Dentre os compositores brasileiros, 19 composições foram-lhe dedicadas por Sérgio Kuhlmann, Carlos Galvão, Marco Aurélio Brito Coutinho, Zoltan Paulinyi, Éder Camúzis, Jan Guest e Laiana de Oliveira. Pesquisa, coleciona, divulga e executa partituras de viola e música de câmara.

Participou como chefe de naipe convidado nas outras orquestras romenas em turnê pela Europa e Japão. Desde 1997 é Diretor Artístico do Festival Internacional de Música Erudita Brasileira em Oradea, cuja mais recente edição ocorreu entre 04 de maio e 02 de junho de 2009.

A primeira vez que visitou o Brasil foi em 1996, por ocasião do centenário da morte do compositor brasileiro Carlos Gomes. A partir desse ano ficou interessado pela música erudita brasileira e começou a pesquisar e divulgar os compositores e a música brasileira. Mantém uma biblioteca pessoal com 2500 partituras para viola editadas e manuscritas, além de 600 partituras e 120 Cds brasileiros. Há 9 anos é convidado anualmente para o Curso Internacional de Verão de Brasília, onde ministra masterclasses de viola e Prática de Orquestra. Em paralelo com a atividade solística e didática, é arranjador e escreve artigos em muitos jornais húngaros e romenos.

Pela intensa carreira artística foi 25 vezes homenageado com condecorações e diplomas. Desde ano 1965 é membro correspondente da Internationale Viola Gesellschaft de Viena.

Sándor teve a gentileza de conceder recentemente uma entrevista, em romeno, ao TPRB:

TPRB: Cand si cum s-a nascut pasiunea dvs. pentru muzica braziliana?
SJT: De cand am intrat prima oara pe teritoriul Braziliei, adica, in anul 1996. Orchestra filarmonicii de stat din Oradea a avut fructuoase colaborari cu dirijorul, managerul din Roma, Maestrul Francisco La Vecchia. Cunoscand bine calitatea profesionala si artistica a orchestrei, care are o veche traditie din 1760 incoace, si tinand Francisco La Vecchia relatii bune cu Brazilia, lui i-a venit sarcina sa aduca o orchestra reprezentativa din Europa pentru evenimentul aniversar, Centenariul marelui compozitor campineiro, Antônio Carlos Gomes (1836-1896) la montarea spectaculoasa a operei sale Il Guarani. Noi am devenit atunci momentan disponibili si folosibili pentru acest eveniment, care a durat 2 luni de zile, de la repetitii pana la 5 spectacole. Cunoscand mai multe limbi, cat ne-am pregatit opera, m-am imprietenit cu multe persoane aflate la aceasta montare spectaculoasa, de la regizori, muzicieni, compozitori, dirijori pana la interpreti solisti. Deja atunci am inceput sa ascult muzica braziliana. De la inceput m-a coplesit ritmul extrem de complex si variat si melodia incantatoare, care te gadila sufletul sensibil de artist. Inainte stiam tare putin despre aceasta tara imensa si minunata: numai ca fotbalistii sunt excelenti jonglari, Amazonia este plamanul Pamantului, ca exista un Pelé si mai ales samba carnavalistica cu nebunia de Carnaval... Mai auzeam ca este un compozitor national, H. Villa-Lobos si din cand in cand auzeam piese lui pentru chitara, la posturile Radio Budapest. De la amici mei brazilieni "gasiti" am cules multe partituri si la aeroport am constatat ca 11 kg are greutatea coletului... (note muzicale tiparite, xerox, Cds, programe de concerte cu date importante despre compozitori necunoscuti de mine pana acum si analizele pieselor). Am inceput sa ma aprofundez mai serios in materialul adus. Am constatat ca nu este mai prejos muzica si compozitorii brazilieni ca cei europeni. In toata viata mea artistica, de fapt, incerc sa caut noutati, lucrari, compozitori mai putin cunoscuti in prezent, printre melomani. In 1996 am inceput sa deschid o alta cale penttu valorificarea muzicii braziliene, fiindca deja la primul contact cu opera Il Guarani m-a uimit frumusetea muzicala. Din stima pentru noii prieteni brazilieni, am organizat in urmatorul an (1997) primul concert dedicat in exclusivitate compozitorilor brazilieni. Surpriza mea a fost mare atunci cand am constatat ca si publicul si colegii mei implicati in program au inteles ca intr-adevar aceasta muzica necantata pana atunci pe scenele de concerte este frumoasa si tot atat de placuta. La fel, colegii mei m-au incurajat pozitiv cu entuziasmul lor. In concluzie, acel eveniment Aniversar - Carlos Gomes m-a entuziasmat in profunzime si am devenit devotat propagator, interpret, cercetator si autonominalizat "director artistic" al Festivalului de Muzica Braziliana... la inceput, si de la a sasea editie Festival International de Muzica Clasica Braziliana... "particular", fiindca nu am niciun sprijin sau sponsorizare la organizarea evenimentelor care, har Domnului si a putinilor prieteni sufletisti, a ajun festivalul la cea de-a VIII-lea Editie. Trebuie subliniat ca este la ora actuala dificil sa organizez o asemenea manifestare prestigioasa, pe plan national, de a mobiliza interpreti fara o contributie financiara simbolica macar! Toate cheltuielile (telefoane, redactarea programului de sala, anunturi la mass-media) revin directorului Festivalului... Dar eu ma simt fericit ca pot realiza un nobil lucru pentru orasul meu, care are o cultura milenara (!!) si pentru iubitii amici compozitori brazilieni. Din pacate, nu toti apreciaza aceasta preocupare de a mea sufletista, ci "considera" ceva normal... Sunt foarte putini la numar cei care se entuziasmeaza si ma felicita, lauda si considera ca ar merita cea mai mare decoratie culturala.

TPRB: Ati mai fost in Brazilia si ati gazduit multi brazilieni de-a lungul timpului?
SJT: Da, primul meu drum spre super iubita tara a fost in anul 1996. Din 1999 sunt incontinuu reinvitat anual, sa petrec o perioada de doua luni ca un semn de recompensa amicala pentru ceea ce fac pe taramul muzicii braziliene. Partea a doua a intrebarii, sincer zis, posibilitatea mea este modesta de a gazdui amici brazilieni. La un anterior Festival, l-am primit din Petrópolis pe un tanar dirijor de cor, Carlos Fecher, fiul binecunoscutului compozitor Ernani Aguiar. Intr-un program am interpretat, in prima auditie europeana, piesa compozitorului amintit, "Meloritmias Nr. 5 para viola só". Iar in anul acesta (2009) a venit si a asistat la toate concertele festivalului, compozitorul, dirijor de cor, poetul Marco Aurélio Brito Coutinho. In anul 2000 am avut o soprana invitata pe scenele filarmonicii. Atunci, ea studia in Viena. Imi aduc aminte si de un mare eveniment din ianuarie 1971, cand a fost protagonista concertului orchestrei din Oradea celebra pianista de talia internationala Magda Tagliaferro, cu Concertul lui Chopin. Atunci, eu eram deja (de fapt din 1968) prim violistul filarmonicii oradene.

TPRB: Anul acesta, ati organizat deja cel de-al VIII-lea festival de muzica braziliana la Oradea. Nicio institutie, nici macar Ambasada Braziliei de la Bucuresti, nu a fost in stare pana acum de a promova in mod atat de consecvent si efectiv cultura braziliana in România asa cum o faceti dvs. Care este secretul acestui succes?
SJT: Nu este mare secret ceea ce fac. In primul rand, incerc sa studiez mai profund muzica, istoria culturala a unui popor. Incerc sa ma bag in pielea lor si cunoscand viata culturala destul de amanuntita pe meleagurile noastre, mereu innoiesc cu ceva necunoscut pana in zilele noastre. Nu este frumos sa ascult o lucrare, um compozitor “top” ci este important sa si “educam” acel public care este in oarecare masura si receptiv. Nu astept imediat de la ei um entuziasmat succes. Dar, cu munca perseverenta si sistematica, voi ajunge la rezultate placute! Asa este si cu preocuparea mea de cand m-am indragostit de Brazilia si de locuitorii, de muzica lor, de obiceiurile lor deosebite, care reflecta mult din sufletul lor deschis si bun. Deci, daca mi-a placut totul, am devenit propagator, raspanditor devotat, stiind ca pana acum nu a fost exercitata sistematic aceasta cale. Si acum ma pot mandri ca am realizat ceva pentru aceste doua natiuni, intre aceste doua tari splendide. In 2009 am finalizat si organizat cel de-al 8-lea Festival, care a durat o luna de zile si a inclus 10 concerte. Am dorit sa programez si un concert simfonic cu Filarmonica de Stat din Oradea, avand si lucrari orchestrale in biblioteca mea braziliana, dar din pacate nu s-au gasit “urechi receptive” din partea secretariatului muzical. Din 1996 m-am imprietenit cu tenorul, profesorul, compozitorul, dirijorul coral, poetul Marco Coutinho, si de multa vreme dorea sa fie prezent la vreun festival. Acum i-am dat posibilitatea sa vina. Centrul Cultural Posticum, extrem de receptiv si primitor, mi-a oferit 18 de zile gratuit sa locuiasca Marco Coutinho in hotelul lor si au si asigurat trei ori pe zi mancare pentru brazilianul oaspete. Pentru acest unicat oferta din partea directorului, eu am trecut in programul de sala ca sponsor spiritual oficial. Tare mult ma supara acel lucru ca o asemenea promovare a muzicii braziliene nu prea este ajutata. Eu fac totul pentru stima si consideratiunea deosebita pentru toata lumea si din acest motiv am infiintat o Biblioteca si Discografica braziliana. Deci, secretul meu este evident! Imi place acest popor tanar, oamenii deschisi, fericiti, tare muzicali, cu suflet mare si larg deschis pentru tot, pentru a dezvolta si mai bine “istoria lor tanara”. Stima catre “ei” este profunda si din acest sentiment mereu incerc sa introduc la concertele noastre cate una-doua piese in prima auditie si in afara festivalurilor cunoscute. In peste 250 de concerte gasiti lucrari braziliene in calendarul meu, din anul 1996 incoace...

TPRB: Noi, brazilienii, in general, avem mare respect fata de milenara civilizatie europeana, avand in vedere ca suntem o natie tanara. In schimbul cultural promovat anual de dvs. la Oradea, nu pleaca oare brazilienii cu mai mare“profit”decat romanii?
SJT: Brazilianul (compozitorii) “implicat” la concertele mele in general, are numai un mare “profit moral”... unii ma si felicita... Atat!! Acest profit moral este folositor din partea compozitorului si in curriculum vitae findca se poate lauda ca lucrarea a fost interpretata de cine si unde. Este o mandrie pentru oricare compozitor cunoscut sau necunoscut. Si, poate prin acest gest, lucrarea respectiva va capata un interes mai deosebit. Da, profitul este evident. In România conlocuiesc bine multe natiuni. In Transilvania locuiesc doua milioane de unguri, prin aceste nationalitati avem profitul in sensul ca ne devenim mai cunoscuti pe plan international, ca se invata numele interpretilor entuziasti, oraselor romanesti, unde apare “cate ceva” brazilian. Deci, profitul este simbolic si devine o reclama extrem de fructificativa chiar daca ne despart mii si mii de kilometri.

TPRB: Cum vedeti, pentru viitor, derularea schimburilor Transilvania-Brazilia in domeniul Muzicii?
SJT: Este o mai mare responsabilitate din partea Ambasadei, stiind ca, in România, in Transilvania cu o traditie milenara exista cate o persoana, unu-doi grupuri camerale profesioniste, sau interpreti sufletisti, care incearca apropierea celor doua popoare sa sacrifice mai multa stima, energie si nu in ultimul rand, sa sprijine si material, sa iasa aceste “actiuni” mai interesate de cei care se gandesc la viata economica existenta de toata zilele. Responsabilul cultural ar trebui sa tina o evidenta serioasa despre numele artistilor sufletisti si sa sprijine ideile acestora, la evenimentele oficiale ale Braziliei, sa injghebeze, chiar oficial, schimburi culturale mai evidentiate si mai dese. Asa s-a intamplat si in 1996, cand Orchestra din Oradea, cu 74 de artisti instrumentisti, a asistat la semnificativul eveniment, la montarea operei Il Guarani, despre care s-a stiut ca, acele spectacole au fost unicate, in sensul ca, in intregime, fara sa fie taiata vreo nota muzicala din partitura am cantat totul, si nu cum s-a intamplat la Milano, la prima auditie mondiala, dirijata chiar de compozitorul Carlos Gomes, cand nu s-a cantat in intregime... nici timp de peste o suta de ani... Noi am executat toata lucrare, de la cap la coada. Deci, in septembrie 1996 a fost o adevarata “prima auditie mondiala”. Sunt mandru de acest fapt realizat chiar de noi oradeni din Transilvania, impreuna cu acei implicati din Brazilia si cu cei doi (dirijorul si singurul rol principal feminin din toata opera) din Italia.

15.7.09

Daca ma lasi in Pantelimon, nu stiu sa ma intorc acasa

Cotidianul din 13 iulie 2009 a publicat un interviul intitulat Un brazilian la Bucuresti: "Daca ma lasi in Pantelimon, nu stiu sa ma intorc acasa".

Interviul cu Fernando Klabin a fost consemnat de catre ziarista Gabriela Lupu, si poate fi citit in intregime aici.

9.7.09

Cristo de cabeça romena

Cada cidade – pequena ou grande – geralmente tem suas boas referências paisagísticas e/ou monumentais. O Rio de Janeiro, pólo turístico hipnotizador, não poderia ser diferente. Além da sua beleza natural, apresenta obras humanas que encantam os olhos de todos aqueles que ali chegam por via terrestre, marítima ou aérea. Trata-se do Cristo do Corcovado, gigantesco e ousado, poesia em concreto armado, planejado e executado na Europa e trasladado para os trópicos a fim de encantar os que têm a sensibilidade de enxergar o mundo, a partir das belezas que nos cercam.

A maquete daquela obra ficou por conta do escultor francês Paul Landowsky (1875-1961), de ascendência polonesa, mas quem executou a cabeça daquele monumento foi Gheorghe Leonida, jovem escultor romeno, estudante em Paris. Este nasceu em Galati (1892). Filho do Coronel Anastase Gill e Anatilda Gill. Estudos secundários e curso superior em Bucareste, tendo concluído este no Conservatório de Arte de Bucareste. Especializou-se em Roma. Sofreu influência de Rodin. Muitos de suas obras enriquecem os museus do seu país e do Exterior. Viveu metade de um século, isto é, de 1892 a 1942.

Quanto ao Cristo Redentor, aqui seguem algumas informações interessantes:

Estrutura de concreto armado, recoberta por um mosaico à base de esteatita; uma escada interna dá acesso à cabeça e aos braços. A estátua mede 30m de altura e 30m de envergadura, além dos 8m de altura do pedestal; altura da cabeça 3,75m; comprimento de cada mão 8m; peso total 1.145t. O monumento foi inaugurado às 19 horas do dia 12 de outubro de 1931; a ligação para sua iluminação foi feita de Roma, por ondas hertzianas, da estação de Coltano, sob o comando pessoal de Guglielmo Marconi, a bordo do seu iate Electra, fundeado no porto de Gênova. O novo sistema de iluminação do monumento, abrangendo quarenta e quatro refletores de 1000V, também foi inaugurado com ligação direta do Vaticano, pelo papa Paulo VI, no dia 31 de dezembro de 1964.

Fonte: Reprodução do artigo Quem construiu a cabeça do Cristo Redentor?, de autoria do Professor Ático Vilas-Boas da Mota, publicado em 4 de julho de 2009 na rubrica Janela Cultural da Rádio Melodia.