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22.12.11

Senhorita Christina

O selo Tordesilhas da editora Alaúde de São Paulo, sob a inspirada liderança de Joaci Furtado, acabou de lançar a novela Senhorita Christina, do romeno Mircea Eliade, com tradução de Fernando Klabin e ilustrações do argentino Santiago Caruso.

Eis abaixo o texto de apresentação da obra, promovido pela editora:

Depois de tantos vampiros amansados, que até renunciam ao sangue humano, nada como oferecer terror de primeira qualidade ao público apreciador do gênero, permeado pela maldade que fez a carreira e a fama desses seres meio mortos, meio vivos.

Senhorita Christina é uma novela rigorosamente dentro dos padrões internacionais do vampirismo, com um detalhe: foi escrita por um dos maiores intelectuais do século XX, Mircea Eliade, mais conhecido como historiador das religiões, e no país de origem do conde Drácula – a Romênia. 

O ano é 1935. Ígor, jovem e belo artista plástico, e o professor Nazarie, arqueólogo, são hóspedes do imenso casarão sede de “Z.”, latifúndio decadente em Giurgiu, distrito na fronteira romena com a Bulgária. A senhora Moscu, dona da propriedade, vive com as filhas Sanda, uma jovem adulta, e Simina, de nove anos. À medida que os dias – e sobretudo as noites – passam, fenômenos cada vez mais estranhos se sucedem, a começar pelo comportamento da senhora Moscu – acometida de súbitas ausências, como que hipnotizada por alguém – e de Simina, cujo cruel cinismo é incompatível com uma criança. Sanda, por sua vez, parece prisioneira de um terrível segredo que não consegue ou não pode explicar a Ígor, por quem se apaixona. Aos poucos, os hóspedes percebem a ascendência de senhorita Christina, irmã da senhora Moscu morta aos vinte anos, durante uma revolta de camponeses que tomou a Romênia em 1907. Seu quarto permanece intocado, e o enigmático retrato da dama domina o aposento, impressionando Ígor. Simina diz conversar com a tia morta e ela mesma começa a aparecer em sonhos para o artista, a quem revela sua paixão. Sonho e realidade vão se mesclando, e Ígor já não sabe distinguir se delira com a presença de Christina em seu quarto, onde ela deixa a inconfundível fragrância de violeta, ou se está se envolvendo com a loucura de uma família doentia. Tudo se encaminha para o embate velado entre Christina, mistura de fantasma e vampiro, e Sanda, que disputam, em condições bastante desiguais, o amor do mesmo homem. Este, por sua vez, é acossado pela volúpia da morta-viva, em cenas de extrema sensualidade, enquanto se compromete com Sanda – já agonizante no leito, atacada por moscas espectrais que vão lhe sugando o sangue. O final é apoteótico, e não se revela aqui para se preservar o prazer da leitura.

Porque, de fato, a leitura de Senhorita Christina é prazerosa, sobretudo para os que apreciam o suspense e o terror. A atmosfera é lúgubre, mas sem aqueles exageros que hoje até soam cômicos: nada de dentes caninos protuberantes, castelos tenebrosos, morcegos ameaçadores ou urnas funerárias que servem de cama quando surge a aurora. A fatalidade impera, e todos os personagens são prisioneiros da presença diabólica de Christina até o desenlace da narrativa. E todos são psicologicamente densos, ao ponto de Simina, com sua perfídia protegida pela aparente fragilidade de criança, aterrorizar o leitor. Ao mesmo tempo, uma intensa sensualidade permeia o livro – acusado de “pornográfico”, quando publicado em 1936, o que valeu a Eliade uma suspensão temporária da universidade onde lecionava.

Em tradução direta do romeno, a luxuosa edição do Tordesilhas guarda outro presente: as belas ilustrações de Santiago Caruso, argentino que ilustrou A condessa sangrenta, de Alejandra Pizarnik, também publicado por este selo. O posfácio é do romeno Sorin Alexandrescu, sobrinho de Mircea Eliade e especialista na obra do tio.

28.7.11

Mais Noica no Brasil

Mais um momento de ápice nas relações culturais entre o Brasil e a Romênia: foi lançado este mês, em São Paulo, mais um volume da obra do filósofo romeno Constantin Noica. Trata-se do Diário Filosófico, de 1944, traduzido pela primeira vez para o português por Elpídio Mário Dantas Fonseca e publicado pela É Realizações.

21.9.10

Blecher em português

Acabaram de ser publicados poemas de autoria do escritor romeno Max Blecher, traduzidos por Fernando Klabin para a primeira edição, de setembro de 2010, da revista (n.t.) Revista Literária em Tradução, a qual pode ser acessada online ou descarregada gratuitamente em formato pdf.


Editada por Gleiton Lentz em Florianópolis, a revista virtual constitui iniciativa valiosa e rara na paisagem brasileira, procurando revelar ao público, com alto cuidado editorial e sublinhada preocupação estética - incluindo um suplemento de arte e álbuns de música - autores pouco conhecidos do mundo inteiro, com seus textos em apresentação bilíngüe.

Max Blecher (1909-1938) é um desses autores singulares que não suporta rótulo. Comparado a Franz Kafka e Bruno Schulz, considerado vanguardista, surrealista, modernista, intimista, ele constitui, na literatura de língua romena, fenômeno único que só nos últimos anos vem sendo reconhecido na própria Romênia e em plano mundial. Nascido no seio de uma abastada família judia em Botosani, na Moldávia setentrional, o jovem Blecher teve de interromper seus estudos de Medicina em Paris ao ser diagnosticado com o mal de Pott, que o confinou ao leito em seus últimos 10 anos de vida, passados na pequena cidade moldava de Roman. Isso não o impediu, contudo, de se atualizar quanto às tendências culturais européias e manter correspondência com André Breton, André Gide e Martin Heidegger, além de numerosos intelectuais romenos. Embora restrita em páginas como foi sua vida limitada em anos, a intensidade de sua obra literária parece refletir a lógica de suas últimas palavras: Vivi em 29 anos mais do que outras pessoas em 100.

28.3.10

Mini-enciclopédia Brasil-Romênia

A Academia Brasileira de Letras e a Fundação Alexandre de Gusmão convidam para o lançamento do livro Brasil e Romênia: Pontes Culturais, do professor Ático Vilas-Boas da Mota, a realizar-se no dia 30 de março de 2010, às 15 horas, no Rio de Janeiro, na sede da Academia, localizada à Av. Presidente Wilson, 203, Castelo.

27.1.10

Steinhardt em português

Transcrevo, a seguir, artigo intitulado Memórias de um mártir cristão no inferno do totalitarismo, de autoria de Felipe Cherubin, publicado em 17 de janeiro de 2010 pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O Diário da Felicidade, de Nicolae Steinhardt (1912-1989), é uma surpresa no circuito editorial brasileiro. Afinal, por que publicar um livro de memórias de um monge ortodoxo romeno aqui desconhecido? Primeiro, porque O Diário da Felicidade é um documento histórico, esforço pessoal do monge Nicolae para preservar a dignidade humana e manifestar resistência espiritual por meio da literatura, sendo uma resposta ao fenômeno totalitário, isto é, da capacidade humana de resistir e realizar sua plenitude, mesmo diante de intensa privação. Segundo, O Diário é uma obra-prima literária que transita por uma lista infindável de autores da cultura humanística, num verdadeiro espírito de abertura intelectual. Texto confessional na tradição socrático-agostiniana, nele a preservação da memória e a confissão sincera são aspectos indissociáveis que moldaram a vida e o pensamento do monge e revelam, sobretudo, o lado mais perverso da cultura e da política romena sob o regime comunista, entre 1947 e 1989.

Steinhardt conviveu com importantes intelectuais romenos, como Noica, Eliade, Chimet, Cioran e Ionesco. Recebeu reconhecimento do papa João Paulo II, admirador de sua obra.

As ideias que desenvolveu não se reduzem apenas ao universo romeno. Sua grande lição é que o totalitarismo, como fenômeno universal, muda de nome, mas sua natureza persiste - o fato é que a liberdade humana sempre estará diante desta ameaça.

Assim, Steinhardt não fica apenas no relato autobiográfico. Seu diário revela uma visão libertária, apresentada de forma fragmentada no decorrer do texto (por meio de flashes entre o passado e o futuro) e segue, surpreendentemente, um fio condutor coeso, que dá unidade à cosmovisão proposta e vivida pelo autor.

Essa unidade, em linhas gerais, está disposta, primeiramente, por meio da conversão de Nicolae ao cristianismo e da própria essência do que é ser cristão e, secundariamente, pela lição apresentada na forma de três soluções para o homem resistir diante da mais dura opressão, ilustrada por fatos biográficos da tríade Solzhenitsyn, Zinoviev e Churchill. As soluções, supostamente simples, são difíceis de seguir: seus escritos são uma lição de como guiar a si mesmo num cenário desesperador, dominado pelo niilismo e o absurdo.

Em O Diário da Felicidade, fica claro que Steinhardt desenvolve seu pensamento colocando o problema de Deus não em aspectos teológicos, mas antropologicamente, como drama do homem concreto - dessa maneira, são acolhidas as ideias de Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Thomas Mann, Franz Kafka e, principalmente, Dostoievski, pensadores que trataram da questão existencial, do pecado e da redenção. Citando as lições de Dostoievski, Steinhardt faz uma interessante defesa da condição humana, fundada no livre-arbítrio, apontando o mal não como criação divina, mas consequência da liberdade humana.

A grande contribuição do seu diário é resgatar a mensagem cristã original, desmistificando aquela visão do cristão como um homem recluso, pudico, que renuncia à vida da matéria em nome da conquista do paraíso. O cristianismo existencialista de Steinhardt está com os olhos no presente, em contato constante com a mundanidade e as vicissitudes da vida. É o cristianismo que agrega e abriga e que vive com o a mente e o coração em Deus, mas com os pés no chão.

No pensamento de Steinhardt, em que vida e política são indissociáveis, voltamos ao velho ideal platônico da República, isto é, devemos cultivar a virtude privada para não cairmos no vício público, procurando, assim, equacionar de um lado a lei e a ordem da vida civil e, de outro, a esfera da liberdade individual, evitando a domesticação totalitária e a anarquia.

24.1.10

Steinhardt no Brasil: entrevista

Transcrevo, a seguir, artigo intitulado O monge que achou a liberdade na prisão, de autoria de Antonio Gonçalves Filho e Felipe Cherubin, publicado em 17 de janeiro de 2010 pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O Diário da Felicidade, primeiro livro do monge ortodoxo romeno Nicolae Steinhardt publicado no Brasil, chega às livrarias para apresentar ao leitor um autor praticamente desconhecido. Steinhardt, no entanto, foi um dos pensadores mais intrigantes da cultura romena no século 20. Nascido em Bucareste, no seio de uma família judia, teve formação jurídica e logo se tornou crítico literário, manifestando profunda erudição.

Steinhardt publicou pouco em vida. São textos que se resumem a análises literárias - com exceção de O Diário, sua obra-prima -, legado de uma vida que testemunhou o lado mais sombrio da cultura e da política romena.

Em 1960, Steinhardt, interrogado pela Securitate, polícia ideológica do regime comunista romeno, recusou-se a colaborar como testemunha de acusação no processo movido contra um grupo de intelectuais, entre eles seu melhor amigo, o filósofo Constantin Noica.

A sua recusa lhe custou a pena de 12 anos de trabalhos forçados, dos quais cumpriu 4. Convertido ao cristianismo na prisão, ele foi libertado em 1964, retirando-se para a vida no mosteiro.

Publicado pela É Realizações (554 páginas, R$ 110), O Diário da Felicidade foi traduzido por Elpídio Mário Dantas Fonseca, estudioso da obra de Steinhardt. A seguir, o tradutor fala, em entrevista exclusiva concedida ao Estado, sobre o livro.

Certas passagens do livro marcam uma mudança formal na linguagem de Steinhardt, considerando que num dos primeiros livros, À Maneira...de Cioran, Noica, Eliade, ele emulava o estilo de outros autores. Steinhardt buscava deliberadamente essa imitação ou um caminho próprio? Qual a sua conclusão sobre a sua construção estilística?
A construção estilística dele revela um autor com o completo domínio da língua. Então, propositadamente, procurei manter o nível elevado onde era elevado e o nível vulgar onde era vulgar. Algumas vezes ele emprega palavrões, expressões cruas, estão assim no romeno. Minha ideia foi a de manter em português a mesma construção original.

É difícil entender o enredo da obra e da vida de Steinhardt sem o conhecimento prévio de sua relação com Constantin Noica, amizade, aliás, que o levou à prisão. Que tipo de envolvimento ele teve com o filósofo?
Steinhardt e Noica foram alunos do filósofo romeno Nae Ionescu, além de terem feito parte de uma geração de grandes intelectuais - Emil Cioran, Eugène Ionesco e Mircea Eliade. Eles tinham uma grande amizade e o próprio Steinhardt considerava Noica um segundo pai, que o fez nascer de novo, apontando o mosteiro onde passou seus últimos anos. O crítico Virgil Bulat, aliás, considerava suas obras filosóficas complementares. A vida de Steinhardt está intimamente ligada à de Noica, um dos muitos intelectuais romenos que confrontaram o regime instalado em seu país e passaram a ser perseguidos, tendo obras censuradas. O simples fato de se falar mal do regime em reuniões levou o governo a infiltrar nelas espiões e controlar o movimento dessas pessoas. Isso provocou a prisão de 22 intelectuais em 1958, entre eles Noica. O último a ser encarcerado foi Steinhardt, de quem exigiram que fosse testemunha de acusação do grupo, mas, a despeito de ter sido traído por todos os amigos, não traiu ninguém.

O título do livro de Steinhardt é curioso. Por que O Diário da Felicidade? O que era a felicidade para Steinhardt? Como lidar com esse paradoxo da noção de felicidade num período de quase meio século de memórias marcado por fatos sombrios?
A felicidade para Steinhardt está fora do tempo, independente do ambiente circundante. Ele a encontra nas piores situações. Ela está fundamentalmente associada à conversão ao cristianismo. Steinhardt diz que são os anos mais felizes da vida dele, pois foi a prisão que o levou ao cristianismo, do qual vinha se aproximando havia muito tempo. Mas foi a possibilidade de morrer sem ser batizado que o levou à conversão.

O Diário da Felicidade recorre a um estilo literário confessional, em que a preservação da memória e a sinceridade são eixos que desenrolam a narrativa da biografia de Steinhardt. A que tradição ele estaria filiado?
Ele está numa linha direta com Santo Agostinho, isto é, a confissão cristã do abrir-se totalmente diante Daquele que tudo sabe para que possamos saber ainda mais acerca de nós mesmos.

É possível classificar O Diário como um testamento político, uma resposta contra o fenômeno do totalitarismo?
Sim. Steinhardt se concentrou em problemas que Constantin Noica, por exemplo, acreditava serem menores. Noica teve uma preocupação de resgatar o passado e dirigir-se ao futuro em suas aulas de filosofia, afastando-se de um mundo que o repelia, ao passo que Steinhardt não. Ele dá o testemunho diante das condições mais desfavoráveis, põe em prática aquilo que aprende da filosofia e da religião. Então, as palavras dele são cheias de sentido. Tudo o que ele diz nesse livro foi vivido, não foi da boca para fora.

Levando em conta o grande número de citações de filósofos e escritores existencialistas, em que medida o cristianismo de Steinhardt foi marcado pela leitura de Sartre ou Camus?
O que eu posso dizer, de forma geral, não só em relação ao existencialismo, mas a respeito de uma série de outras teorias e confissões religiosas do livro, é que o cristianismo, como mostrado por Steinhardt, é o verdadeiro cristianismo e não a caricatura com que estamos acostumados a ver. Ele analisa, apanha o que importa e rejeita o que não interessa.

Mas, como cristão, Steinhardt cita uma série de autores que poderiam, de certo modo, serem entendidos como seus antípodas, entre eles Jean Genet. Por que Steinhardt, curiosamente, se concentra em autores fora da tradição cristã?
Em relação a outras personagens que Steinhardt cita em O Diário da Felicidade, ele busca aquilo que em determinado momento expressa o comportamento cristão. Na verdade, o cristianismo abrange tudo isso - abrange e supera - então, não é simplesmente pelo fato de alguém ser anticristão que tudo aquilo o que ele diz será 100 % errado. É exatamente aquilo de colher o que importa. Essas pessoas não ficaram cegas para tudo. É o próprio divino que fala com cada um de nós. É isso que Steinhardt identifica nessas pessoas.

Steinhardt, ao longo de sua vida, esteve diante de pelo menos duas grandes ameaças: primeiro, o antissemitismo por causa de sua origem e o comunismo romeno. Como isso o afetou?
Em relação ao antissemitismo, Steinhardt, ao entrar no mosteiro, escreve uma pequena autobiografia na qual diz que não sentiu de perto esse preconceito já que o pai, engenheiro e herói da 1ª Guerra, era o que se chamava de judeu de segunda classe - havia separações nessa época, sendo os judeus de primeira classe os grandes industriais, e os de segunda classe, profissionais liberais. Então, ele não sentiu o antissemitismo, ainda mais pela proximidade da família dele com cristãos ortodoxos - na verdade, ele passou a sentir que era repelido pela comunidade judaica após sua conversão ao cristianismo. No caso do comunismo romeno e do totalitarismo em geral, ele tem um livro em que mostra quando começam os sinais da corrupção do Direito. Steinhardt identifica isso no fim do século 19, na Sorbonne, produzindo um livro para repudiar essas novas tendências do Direito à luz do Direito Constitucional tradicional.

Em que linha filosófica você colocaria o trabalho de Steinhardt?
Numa linha direta socrática com um ponto alto em Santo Agostinho, no sentido de ser um pensador que retoma a filosofia e passa a vivê-la, colocando em choque concepções que antes eram tidas como certas, ou seja, a filosofia tomada a partir da vivência real e concreta - aquela que está em busca da sabedoria.

Embora Steinhardt seja um monge, ele tem uma forte ligação com a modernidade, apresentando em seus textos considerações sobre ciência e tecnologia. Como ele se relaciona com elas?
Esse é um lado que foi esquecido por alguns cristãos hoje em dia, do papel do cristianismo na formação do Ocidente, e especificamente a Igreja Católica, que perdeu a hegemonia cultural na modernidade. Eles deixaram de estar a par daquilo que acontecia, de serem sacerdotes, não só do ponto de vista ritual, mas também intelectual. A tecnologia e as ciências nunca podem ser contrárias à realidade, elas partem do pressuposto do real. É a abertura do pensamento de Steinhardt à realidade, própria do cristianismo, que foi perdida.

Nicu-Aurelian Steinhardt, filho de mãe romena e pai judeu, nasceu na Romênia em 1912. Seu pai, engenheiro e arquiteto, foi herói da 1.ª Guerra Mundial. Por linha materna, Steinhardt era parente do psicanalista austríaco Sigmund Freud, a quem costumava visitar em sua juventude. Formado em Direito, frequentou também o curso de Letras na Universidade de Bucareste. Estreou cedo no universo literário, colaborando com algumas publicações. Sua primeira obra a vir a público foi um pequeno volume de posição "liberal-conservadora", escarnecendo tanto das manifestações da nova direita e elitistas quanto as da esquerda. Entre os parodiados estavam Constantin Noica, Emil Cioran, Mircea Eliade, Petru Comarnescu e Geo Bogza. Foi grande amigo do filósofo Constantin Noica e conviveu com os principais intelectuais romenos do século 20.

1.12.09

O Diário da Felicidade no Brasil

A primeira tradução brasileira de O Diário da Felicidade, de Nicolae Steinhardt, realizada por Elpídio Fonseca e revista por Cristina Manescu, será lançada dia 17 de dezembro de 2009, às 19:00 horas, na sede da editora É Realizações em São Paulo.


Reproduzo parcialmente, abaixo, texto de apresentação assinado pelo tradutor.



"Habent sua fata translationes, ou do porquê traduzi O Diário da Felicidade, de Nicolae Steinhardt?

Coisas há que passam sem ser cridas,
E coisas cridas há sem ser passadas,
Mas o melhor de tudo é crer em Cristo.
(Camões, terceto final do soneto CV)

A pergunta mais do que natural que surgirá ao leitor deste livro é: por que um brasileiro traduziria para o português um livro de um monge romeno aqui desconhecido? E a história, longa, mas que procurarei resumir em algumas linhas, remonta ao ano de 1980: enquanto me dedicava aos estudos de língua portuguesa, vi a indicação de uma gramática romena na série de livros que manuseava e disse: por que não aprender tal língua?

Mas a realização desse plano só se daria dali a 18 anos quando conheci aquela que viria a ser minha esposa e que, num primeiro encontro, me emocionou tanto pela correção com que se expressava em português, que pensei com meu botões: o mínimo que essa moça merece é que eu aprenda a língua dela, se não tão bem quanto ela fala a minha, ao menos num nível que possa homenageá-la.

Indicando ela um curso de auto-aprendizado, com fitas cassetes, qual não foi a minha surpresa quando ela também me recomendou aquela mesma gramática de dezoito anos antes! Comecei o curso por conta própria, e, após seis meses, passei a namorar aquela com quem me casaria. Passado um ano, fiz com ela minha primeira viagem à Romênia, onde pude falar pela primeira vez e compreender sofrivelmente o romeno. Depois disso, com a ajuda de minha mulher, passei a falar razoavelmente.

Eis que um dia de 2004, enquanto ouvia de novo uma aula do curso de filosofia de Olavo de Carvalho, de 1998, atentei para um projeto de que ele falava entre as embaixadas da Romênia e do Brasil, tendo à testa, então, o Embaixador Jeronimo Moscardo, segundo o qual haveria traduções de livros de filosofia romenos em português, e traduções de livros de filosofia brasileira em romeno: faziam parte da lista obras de Mário Ferreira dos Santos, do próprio Olavo de Carvalho, Constantin Noica, Lucian Blaga e Nicolae Steinhardt.

O projeto, de 1998, infelizmente morrera e, dos livros planejados, apenas um, de Noica, As seis doenças do espírito contemporâneo (com tradução de Fernando Klabin e Elena Sburlea, introdução, edição, notas e comentários de Olavo de Carvalho, e revisão técnica de Carlos Nougué, biblioteca de filosofia, Record, 1999), fora publicado. Depois que Olavo de Carvalho terminou de falar, na fita cassete, sobre O Diário da Felicidade, de Nicolae Steinhardt, tive uma iluminação e pensei: ora, sei um pouco de romeno, por que não traduzir O Diário da Felicidade? Vou tomar a peito essa empreitada.

Imbuído da vontade de traduzir Steinhardt, propus esse meu plano ousado à minha esposa, que concordou. Finalmente, em 2006 terminei a tradução e minha esposa entrou em contato com a editora do mosteiro de Rohia, para que este negociasse os direitos autorais do livro com Edson Manoel de Oliveira Filho, esse destemido editor que, desde o primeiro momento em que lhe falei de meu projeto, prometeu-me que publicaria o livro no dia seguinte ao em que eu o entregasse.

Depois de alguns contratempos, minha esposa começou a revisão e, como demorasse a resposta do mosteiro, fomos ela e eu, juntos, a Rohia, em janeiro de 2007, e formalizamos o contrato.

De volta ao Brasil, houve uma espera de quase um ano e meio até chegar assinado o contrato: mal sabíamos que tal demora seria providencial, pois, nesse ínterim, duas novas edições se tinham feito em romeno, aumentando, de muito, o número de notas e de informações, o que só viria a beneficiar o público brasileiro, até agora jejuno de Steinhardt.

Mas não era de se esperarem menores dificuldades, quando se sabe que maiores agruras se abateram sobre Steinhardt, cujos manuscritos do Diário por duas vezes lhe foram confiscados pelo regime comunista da Romênia, obrigando-o a reescrever a obra, para, depois, ver devolvido o primeiro manuscrito.

Hoje, sinto-me plenamente recompensado, pois, envidando esforços superiores às minhas forças, consegui, ao menos em língua portuguesa, atender, sem que o soubesse à época, o pedido que, pouco antes de partir, fizera Steinhardt a seu amigo Virgil Ciomoş:

Sabe, meu caro, faço enorme questão que este Diário apareça. Sem este testemunho público, eu me sentiria culpado diante de Jesus. Gostaria de pedir-te, assim, que retenhas três coisas que te confiarei com língua de morte: 1. Dize a todos que tive fé, de todo o meu coração, em Jesus Cristo, nosso Salvador. Cristo é um grande poder, irmão Virgil, uma grande alegria e uma felicidade ainda maior. A única coisa que ele deseja para nós é fazer-nos felizes. Houve um Instante em que se apiedou também de mim - o inútil - e me tomou para dizer-me que me perdoara. Era em Braşov. Nem sei quanto durou! 2. Dize-lhes ainda que amei sinceramente o povo romeno e que cheguei até a enamorar-me de seus defeitos e 3. toma conta do Diário.

Num Brasil, onde professores de direitos humanos vão fazer curso de especialização na ilha prisão, que é a Cuba do tirano assassino e traficante de drogas que é Fidel Castro, sem se darem conta da incongruência desse ato, este livro servirá de libelo para tirar-lhes a máscara, trazendo-lhe a público o rosto sujo da ignorância ou da conivência.

Elpídio Mário Dantas Fonseca"

Pode ser visto aqui um documentário primoroso, intitulado Arheologia Regasirii, de cerca de uma hora e vinte de duração, realizado por Vasile Alecu em 2006 para a Televisão România Cultural, acerca de Steinhardt e O Diário da Felicidade, entrevistando as principais pessoas da vida deste: o padre Mina Dobzeu, que o batizou, o abade Serafim Man, que o recebeu no mosteiro e o fez monge, Justinian Chira, por intermédio de quem entrou no mosteiro, Justin Hodea, atual bispo e companheiro de mosteiro, Virgil Bulat, companheiro de cela, George Ardeleanu, historiador literário.

15.10.09

Romeno vence concurso brasileiro de haicai

A Associação Cultural Nikkei Bungaku do Brasil, em parceria com o Grêmio Haicai Ipê, promoveu o II Concurso de Haicai Masuda Goga, aberto ao público em geral, com o objetivo de divulgar o haicai e homenagear um de seus maiores divulgadores. Na categoria adulta, o prêmio do segundo lugar coube ao romeno Eduard Tara (foto), com o seguinte poema:

O pátio do asilo -
no meio da solidão
um velho ipê-roxo

Fonte: Maxpress

3.6.09

Entrevista com Flamând

Reproduzo, abaixo, fragmento de recente entrevista realizada e publicada pela escritora e tradutora brasileira Sonia Coutinho, em 25 de maio de 2009, com o poeta e tradutor romeno Dinu Flamând, conhecido também por ter traduzido para o romeno textos do poeta português Fernando Pessoa e do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade:

" (...) O livro mais antigo do meu avô datava de 1710. Ele é sempre o orgulho da minha biblioteca. É um breviário de preces, escrito num bizarro alfabeto de transição: palavras com caracteres latinos na transcrição cirílica. Meu avô era um camponês que se tornou diácono só para cantar na igreja todo domingo. Ele me ensinou o alfabeto antes que eu chegasse à idade escolar.

(...) Nossa região [a Transilvânia] é muito rica em escritores. O maior romancista clássico da literatura romena, Liviu Rebreanu, tinha vivido numa aldeia a 15 quilômetros da minha. Bem perto de mim tinha passado sua infância um grande poeta popular, George Cosbuc, cujos poemas mais conhecidos eram cantados pelos camponeses, entre eles minha mãe. Eram quadros idílicos – a moça que abandona bruscamente seu trabalho de tecer porque ouve o barulho do chicote do seu namorado, que conduz o rebanho para a aldeia (até parece “O guardador de rebanhos”, de Fernando Pessoa!). Muito depressa, identifiquei a poesia como uma espécie de elegância do falar.

(...) Bem mais tarde, descobri a poesia hermética e o modernismo, Rilke, Trakl, Saint-John Perse, para voltar ao romantismo e ao simbolismo, depois de ter engolido avidamente Tzara, que era proibido, Whitman, graças à mesma antologia [de poesia norte-americana], Eminescu, Barbu, Bacovia, Blaga (quatro dos maiores poetas romenos), Leopardi ou então Kavafis... (...)"

Fonte: Jornal Sidarta

8.4.09

Science fiction in Brazilia

Bresil n’est pas un pays serieux: acest citat faimos în Brazilia a fost întotdeauna considerat ca aparţinînd fostului preşedinte francez Charles de Gaulle - ceea ce, în sine, este o reflexie a specificului nostru, a modului în care ne vedem. Pentru că de Gaulle nu a spus niciodată asta. Conform unei documentări exhaustive efectuate în anii ‘80 de jurnalistul brazilian Marcos de Vasconcellos, faimoasele cuvinte au fost rostite în compania lui de Gaulle, dar i-au fost adresate acestuia de către un diplomat brazilian aflat în vizită, ca o caracterizare a ţării sale.

Dar asta nu mai contează acum. Chiar dacă nu respectă întru totul adevărul, acest citat a devenit atît de cunoscut în Brazilia încît este aproape un substitut pentru deviza steagului naţional - ordine şi progres. Pentru că brazilienii nu se consideră un popor serios, fiecare tentativă de a realiza ceva care nu are ca finalitate umorul este întîmpinată - natural - cu rîs. Totuşi, asta nu înseamnă că mişcarea science-fiction braziliană trebuie să se simtă descurajată.

Nu trebuie decît să ne amintim de scriitorul austriac Stefan Zweig, care s-a stabilit în Brazilia în timpul ascensiunii lui Hitler şi apoi scris cartea Brazilia, o ţară a viitorului, lucru care ne-a făcut pe toţi să ne simţim fericiţi şi mîndri pentru că Stefan Zweig era deja cunoscut în rîndul nostru şi era entuziasmat de găsirea în ţara noastră a potenţialului care ar fi putut fi dezvoltat într-un mediu tolerant şi - cel mai important în vreme de război - pacifist (în cartea sa autobiografică Lumea de ieri exprimîndu-şi opinia că europenii sînt o cauză pierdută).

Ironia a făcut ca Zweig să nu mai fie în viaţă în timpul saltului evolutiv cunoscut de Brazilia în anii ‘50, simbolizat de construirea unui întreg oraş (Brasília, acum capitală) în mijlocul cîmpiei braziliene, opera preşedintelui de atunci Juscelino Kubitschek, un avangardist al cărui slogan era “cincizeci de ani în cinci”; anii ‘50 au fost şi martorii industrializării masive a producţiei de automobile şi a primelor exploatări petroliere. Din punct de vedere cultural, ei au marcat naşterea bossa novei.

Confruntaţi cu continua expansiune militară a Germaniei şi cu perspectivele funeste ce ameninţau viitorul Europei, Zweig şi nevasta lui s-au sinucis în 1942, în oraşul brazilian Petrópolis, pe atunci un mic dar cosmopolit oraş la mai puţin de 90 km de Rio de Janeiro, fapt care avea să marcheze, din punct de vedere intelectual, începutul declinului respectului de sine al Braziliei. Dacă tocmai cel care scrisese atît de entuziast despre viitorul Braziliei, probabil primul străin care a văzut in Brazilia mai mult decît fotbal şi Carnavalul din Rio, s-a sinucis la nici un an după, cum am putea avea încredere în el? Suicidul lui Zweig a reprezentat echivalentul cultural al înfrîngerii naţionalei de fotbal în finala Campionatului Mondial din 1950. A răsucit cuţitul în inima poporului brazilian (desigur, ştim că nu Brazilia a fost motivul suicidului, dar efectul acestuia asupra mentalităţii poporului nu poate fi ignorat).

Caveat lector: nu am intenţia ca pe parcursul acestui scurt articol să îmi asum munca sisifică de a oferi o analiză profundă a acestui gen literar, deoarece de la apariţia genului în urmă cu aproximativ optzeci de ani (de la inventarea termenului scientifiction de către Hugo Gernsback în 1926) acesta nu a făcut decît să evolueze. În 2000, cînd am anulat abonamentul la revista Locus, raportul anual al acesteia consemna publicarea a mai mult de 700 de volume SF/Fantasy/Horror pe piaţa anglofilă în fiecare an, adică mai mult de două cărţi pe zi.

Evident, gurile rele vor susţine (avînd dreptate) că majoritatea materialului este de calitate îndoielnică. Iar eu voi răspunde cu legea lui Sturgeon: “90% din orice e de rahat”. Repet, nu intenţionez a efectua o analiză calitativă. O chestiune a cărei dezbatere este mult mai pertinentă este dacă există science fiction legitim produs în Brazilia. Şi dacă există, de ce este aproape necunoscut chiar şi în interiorul ţării? Există mulţi promotori ai genului, dar majoritatea au scris într-o cheie apropiată mai mult fantasticului decît romanţelor ştiinţifice wellsiene, cum ar fi Gastão Cruls sau Coelho Netto. Şi Machado de Assis a scris cîteva nuvele în registrul fantastic, cum ar fi Uma visita de Alcibíades (Vizita lui Alcibiade), în care protagonistul, nativ al anului 1875 (om contemporan, ţinînd cont de faptul că povestea a fost scrisă la puţin timp după respectiva dată), este vizitat de politicianul atenian Alcibiade care apare pur şi simplu în biroul acestuia ca şi cum ar fi fost teleportat din secolul 5 î.e.n.. În 1994, antropologul Alba Zaluar a găsit un manuscris nepublicat al cărui autor era bunicul acesteia, Doutor Benignus; un roman ştiinţific al lui Augusto Emilio Zaluar, inspirat direct din operele lui Arthur Conan Doyle şi Jules Verne.

La momentul publicării acestor opere, ele au fost privite ca satirice (mai ales în cazul lui Machado, un cititor devotat al lui Sterne) sau ca un fel de poveşti cu bau-bau. Un science fiction care să opereze cu concepte ştiinţifice avea să fie aşteptat mult timp, prima revistă care să abordeze acest gen făcîndu-şi apariţia abia în anii ‘50, în perioada de dezvoltare explozivă a Braziliei, două nume fiind esenţiale pentru această realizare, Jeronimo Monteiro şi Gumercindo Rocha Dorea. Monteiro, jurnalist şi editor (primul editor brazilian al lui Donald Duck în 1950), a fondat în 1964 Sociedade Brasileira de Ficção Científica (Societatea Braziliană de Science Fiction) şi la începutul anilor ‘70 a publicat Magazine de Ficção Científica, versiunea braziliană a The Magazine of Fantasy & Science Fiction. A scris trei cărţi aflate acum la mare căutare în anticariate, Trei luni în secolul 81 în 1947, Oraşul pierdut în 1948 şi Evadare către nicăieri în 1961, dintre care prima va fi republicată în 2009. Monteiro a murit în 1970, dar ştafeta fusese de mult predată unui alt editor: Gumercindo Rocha Dorea, un baiano stabilit în São Paulo, care a publicat pentru prima oară la editura lui, GRD, autori în genul lui Rubem Fonseca, primul roman al acestuia, Cazul Morel, apărînd în 1973. Gumercindo a publicat zeci de cărţi ale căror teme au variat de la politică la ficţiune, avantajînd însă genul lui preferat, science fiction-ul.

În anii ‘80, odată cu apariţia unei noi generaţii ce începuse să publice în fanzine, el s-a oferit să publice materialul proaspăt al acestor autori necunoscuţi. Astfel au fost publicate noi nume, Santos Fernandez, Roberto Schima şi Cid Fernandez printre alţii. Din păcate, majoritatea au dispărut de pe piaţă după publicarea unui singur roman. A fost creat termenul “al doilea val” pentru a desemna această nouă generaţie, succesoare a “primului val” condus de Jeronimo Monteiro şi Gumercindo Rocha Dorea. În anii ‘80 şi în prima jumătate a anilor ‘90 fanzinele dominau mişcarea SF din Brazilia, fiind publicate majoritar în Rio de Janeiro şi São Paulo. Cele mai faimoase erau Somnium (publicaţia oficială a Clube de Leitores de Ficção Científica - Science Fiction Reader’s Club - asociaţie creată în 1985 de Roberto Nascimento pentru a uni fanii genului), Megalon (creat de Marcello Simão Branco), Hiperespaço (creat de Cesar Silva şi Renato Rosatti) şi Scarium, editat de Marco Bourguignon. Dintre acestea, Scarium a făcut tranziţia către web fără a întrerupe şi publicarea pe hîrtie. Atît Megalon cît şi Hiperespaço au decis întreruperea activităţii fără a explora varianta virtuală, iar Somnium, după cîţiva ani de întrerupere, va reîncepe activitatea în format digital.

Începutul noului mileniu a marcat înflorirea activităţii bazate pe web. Lucrurile au demarat foarte încet, dar, în 2004, odată cu apariţia lui Orkut şi a uneltelor sale menite să faciliteze crearea de comunităţi online, oameni din toată Brazilia au început să discute. Din păcate, limba şi atitudinea comunităţii nu au permis vorbitorilor de engleză să participe la discuţii, astfel amînînd un dialog mult mai prolific cu cîţiva ani. Dar chiar şi înainte de Orkut, observăm existenţa unui proiect multimedia pe temă SF bine organizat în Brazilia: site-ul Intempol. Intempol este un univers deschis creat de designerul grafic şi scriitorul Octavio Aragão, în 1998, în jurul unei agenţii corupte de aplicare a legii cu acces la călătoria în timp, pentru o poveste scrisă pentru antologia Outras Copas, Outros Mundos (Alte cupe, alte lumi), publicată de editura independentă Ano-Luz, creată de mai mulţi scriitori de SF, cum ar fi Carlos Orsi, Gerson Lodi-Ribeiro şi Octavio Aragão. Acesta din urmă, impulsionat de cîţiva prieteni (printre care şi eu), a decis să-şi deschidă universul după modelul software-ului open source, oricine putînd participa la dezvoltarea acestuia prin scrierea de noi poveşti. Acest proiect încă trăieşte şi în ziua de azi, ajungînd de la prima antologie ce conţinea unsprezece texte, publicată în 2000, ca azi să cuprindă multe alte poveşti, interviuri cu autori brazilieni şi străini, un joc RPG (scris de Aragão şi de mine), un roman grafic ce a fost nominalizat la premiul HQMix, un fel de Oscar al comic-urilor braziliene, şi alte planuri de viitor: încă un roman grafic este în producţie şi există intenţii de a scoate încă o antologie.

În ceea ce priveşte site-ul, o problemă hardware a făcut ca întregul conţinut să fie pierdut, şi Intempol a dispărut din eter. Din fericire, majoritatea materialului a fost salvat, şi site-ul va fi refăcut, pentru moment putîndu-se vedea detalii la adresa http://intemblog.blogspot.com

Dar povestea SF-ului brazilian este departe de a se fi terminat; mulţumită comunităţilor web menţionate anterior, autori noi, care nu ştiuseră de existenţa unei mişcări de gen, s-au ridicat şi au creat o nişă în rîndul consumatorilor de literatură şi a dezbaterii critice. Noul val, Flavio Medeiros, Tibor Moricz, Clinton Davisson, Ivan Hegenberg, Christie Lasaitis şi Ana Cristina Rodrigues, este format din scriitori ce nu au publicat niciodată pe hîrtie înainte de scoaterea primului roman. Aceştia, împreună cu scriitorii din al doilea val contribuie la lărgirea universului SF din Brazilia.

În ziua de azi, etichetele din trecut nu mai stau lipite la fel de bine, ţinînd cont de faptul că vîrstele componenţilor celui de-al treilea val fac parte din intervalul 20-60 de ani şi că aceştia sînt de orientări sexuale eterogene (fiind trataţi cu egalitate, lucru care nu s-a mai întîmplat în trecut). Toate acestea sînt veşti bune. Chiar dacă SF-ul nu vorbeşte întotdeauna despre viitor, brazilienii care scriu science fiction sînt din ce în ce mai dispuşi să uite un trecut arid şi să se axeze asupra unui viitor plin de speranţă. Şi nu asupra unui viitor utopic, ci a unuia posibil, care poate deveni realitate în urma unui efort comun.

Visul colectiv începe să prindă formă. Pregătiţi-vă, cel ce doarme se va trezi. Şi literatura science fiction braziliană se va schimba pentru totdeauna.

Articol scris de Fabio Fernandes si publicat in limba româna de Nautilus nr. 15 in aprilie 2009. Multumiri lui Cristi Ion.

26.3.09

Lispector e Bucareste

Uma das mais aclamadas escritoras brasileiras, Clarice Lispector (1920-1977), nasceu num vilarejo ucraniano no meio da viagem emigratória que sua família empreendia a partir da Rússia czarista rumo ao continente americano.

A estada em Bucareste, no ano de 1922, foi crucial para o seu destino: foi ali, na Legação da Rússia (foto), que Pinkus Lispector, seu pai, obteve o passaporte de viagem para a família prosseguir ao Brasil via Hamburgo.

A bela casa onde funcionava a Legação, antiga residência da família nobre romena Cantacuzino, foi posteriormente comprada pelo príncipe sérvio Obrenovici, que a doou ao Governo russo. Ela foi mais tarde vendida pelo então Governo soviético e demolida em meados da década de 1930, tendo-se construído em seu lugar um edifício localizado atrás do Hotel do Boulevard, na Calea Victoriei esquina com a Rua Eforie.

1.3.09

O espírito de Gherasim Luca

A Revista de Cultura Agulha no. 57, edição de maio/junho de 2007, publicada em São Paulo e Fortaleza, traz um artigo dedicado à poesia do escritor romeno Gherasim Luca, de autoria de Floriano Martins, intitulado Caminhando com o espírito de Gherasim Luca.

Leia aqui o artigo integral, que se desenvolve em torno da interessante análise de um artigo de Augusto de Campos intitulado Gherasim Luca, dessurrealista, publicado pelo Suplemento Literário de Minas Gerais, em sua edição de número 1301 (Belo Horizonte, abril de 2007).

19.11.08

Tertulian sobre Lukács

A Fundação Editora da UNESP acabou de lançar o volume Georg Lukács - Etapas de seu Pensamento Estético.

O livro reúne ensaios produzidos pelo escritor romeno Nicolas Tertulian, que busca reconstruir um devir, escandindo as principais etapas, os projetos estéticos de Lukács. Com sagacidade, lucidez e erudição, expõe uma densa visão de conjunto do complexo e extenso itinerário de Lukács pelo terreno da Estética.

Um dos méritos da obra é evidenciar, na trajetória descontínua de Lukács, o seu caráter orgânico, a unidade de fundo que confere sentido e direção às várias metamorfoses de seu pensamento.

Tertulian reafirma a coerência de um pensamento caro a Lukács: o começo torna-se devidamente compreensível somente em retrospectiva, isto é, à luz do que se perfila ao final do processo. No fim, consegue traçar um retrato forte do pensador ímpar, na Filosofia do século XX.

Nicolas Tertulian nasceu na Romênia, em 1929. Sua tese de doutorado, defendida naquele país, foi sobre as estéticas de Croce e Lukács. Foi pesquisador na Universidade de Heidelberg. Por diversas vezes, foi convidado a ministrar cursos e proferir palestras em várias instituições de ensino e pesquisa em Paris. Foi professor da Universidade de Siena. Desde o início da década de 1980 radicou-se em Paris, tendo sido diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales. Atualmente aposentado, continua a presidir seminários nessa instituição de ensino e pesquisa. É conhecido do público brasileiro sobretudo pela publicação de seus artigos em periódicos. Conheceu o filósofo húngaro G. Lukács, com quem esteve várias vezes em Budapeste, mas também com quem trocou rica correspondência.

Fonte: Fundação Editora da UNESP

14.11.08

Encontro poético romeno-brasileiro

No Suplemento Literário de abril de 2007, publicado pela Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, o poeta, tradutor e ensaísta brasileiro Augusto de Campos faz uma releitura do seu encontro, em 1985, por ocasião de um Congresso Internacional de Poesia em Oslo, com o poeta vanguardista romeno Gherasim Luca (1913-1994), um quase desconhecido dos leitores brasileiros. Surrealista, ou “ex-extra surrealista”, Gherasim (ao lado, retratado pelo caricaturista brasileiro Sergio Raul Morettini) trabalhava com a poesia oral, na qual “interpretação e voz se unem num todo orgânico”.

3.9.08

Virgil Gheorghiu (1916-1992)

Reproduzo, abaixo, artigo A Vigésima-Quinta Hora, de Virgil Gheorghiu, assinado por Celso Augusto Uequed Pitol e publicado em 15 de julho de 2008 em Perspectiva:

Pouco se sabe da Romênia no Ocidente e menos ainda neste cantinho mal afamado chamado Brasil. A etimologia nos remete a uma origem latina presente no radical “Rom”, o mesmo de “Roma”, “romanos” e “romance”. Abrimos um livro de história e descobrimos que, de fato, os romanos lá estiveram, primeiro sob as ordens de Roma, do ano 10 até o 410, e depois sob as de Bizâncio, até 1456. São, portanto, quatorze séculos de civilização latina, mais do que a maior parte dos países ocidentais. Concluímos que o radical “rom”, de romanos, é também o de romenos - aliás, desde o século VII, quando foi utilizado pela primeira vez. Por fim, desdobramos um mapa-múndi e direcionamos nossos olhos para o Leste Europeu, onde o nome do pequeno país aparece. Então nos damos conta de que este pequeno país latino está cercado por alemães, húngaros e vários povos eslavos, os quais o separam, por pouco, da Turquia e dos países do Oriente Médio. E foi neste país latino, circundado por vizinhos que circunstâncias históricas transformaram ora em aliados, ora em inimigos ou dominadores, que produziu o maior romance - ou o maior testemunho - acerca da barbárie que esteve perto de destruir toda a civilização que a Romênia carrega em seu nome: este romance é “A Vigésima-Quinta Hora”, de Virgil Gheorghiu.

Na epígrafe da edição portuguesa - traduzida por ninguém menos do que Vitorino Nemésio - há uma citação de Toynbee que diz o seguinte: “a história, como drama, é como o romance - filha da mitologia. Escrever a história é, também, fazer ficção: selecionam-se fatos, enfatizam-se alguns deles, interpretam-se outros. A “Ilíada” pode contar a história da Guerra de Tróia e “Guerra e Paz”, a das invasões napoleônicas na Rússia; a história da Segunda Guerra e de seus efeitos produzidos na alma dos homens, é o que - também - nos conta Virgil Gheorghiu, o romeno Virgil Gheorghiu, habitante de um país cristão e latino cercado por inimigos. Cristão e latino, isto é, ocidental - só que o Ocidente já esqueceu o que é ser cristão e latino. Na Europa Oriental, entretanto, o legado se conservou, fortalecido pela dura resistência ao avanço dos turcos otomanos - uma resistência, antes de tudo, interior: mesmo após terem sido conquistados pelo Império Otomano, os romenos não abandonaram o cristianismo. Que diferença dos seus vizinhos, tão facilmente convertidos às religiões materialistas inventadas depois do Iluminismo, como adolescentes imaturos às ordens de uma nova gangue! O termo “gangue” cabe bem aqui. Pois o nazismo, o fascismo e o comunismo têm o mesmo poder de atração dos gângsters; seduzem pela violência injustificada, pela lei do mais forte, pelo assassíno em nome da causa - e um assassínio desses, amparado por uma causa sem sentido, e, também ele, sem sentido.

Diante dessas gangues, os romenos não capitularam. Romenos como Johann Moritz, o personagem central de “A Vigésima Quinta-Hora”. Moritz vive numa pequena aldeia da Transilvânia, interior da Romênia. Seu único desejo, como todo aldeão romeno, é manter sua casa, casar com a mulher amada, ter uma boa família e seguir os 10 mandamentos. Nada mais do que isso. Aparentemente, não há nada de errado com Moritz. O seu problema foi ter vivido durante a Segunda Guerra Mundial sendo quem é - um cidadão comum que não empunhava bandeira alguma. Sem manifestar qualquer simpatia por causas maiores, Moritz é sucessivamente perseguido por nazistas, comunistas e democratas ocidentais, acusado de judaísmo (por ser amigo de judeus), reacionarismo (por ser cristão) e comunismo (por ter o azar de ter sido preso junto com eles). Ele não entende praticamente nada do que está acontecendo à sua volta - e, mesmo assim, jamais, em momento algum, deixa de ser quem é. Intuitivamente. Sem levantar bandeiras, sem proclamar nada, sem autoproclamar-se nada. Moritz é apenas um indivíduo solitário oprimido entre mundos que não o compreendem e que ele não compreende. Assim como a própria Romênia, país latino entre não-latinos, pobre entre europeus ricos e corajosamente cristão entre ateus.

7.6.08

Brazilia inimii mele

După mulţimea de evenimente culturale din judeţ, Restaurantul „Mioriţa” revine în atenţia oamenilor de cultură sătmăreni cu un eveniment inedit. Este vorba despre lansarea [la sfarsitul lunii mai] cărţii „Brazilia inimii mele”, semnată de Ioan Bar, fost ambasador al României în Brazilia. În paginile acestei cărţi Ioan Bar povesteşte despre amintirile sale din perioada şederii sale între „cariocas”. Mulţumirile fostului ambasador se îndreaptă către profesorul şi scriitorul Teodor Curpaş, principalul „vinovat” pentru această lansare şi pentru faptul că ea a avut loc la Satu Mare, cei doi fiind colegi de liceul în tinereţe. Povestirile lui Ioan Bar vă vor captiva cu siguranţă, ţinând cont că sunt trăite şi exprimate în două epoci diferite, 1975-1979 şi 1996-1999.

Cartea are 342 de pagini şi a apărut sub egida editurii Daya şi prezintă o foarte interesantă parcurgere a ceea ce înseamnă Brazilia ca stat, cultură, oameni şi trăire. Şi mai inedit este faptul că Ioan Bar a reuşit să găsească numeroase asemănări între istoria brazilienilor şi a românilor, punând cel puţin la nivel idealist cele două lumi în antiteză. Poate cea mai importantă lecţie care o dă această carte este cea a multiculturalităţi şi a toleranţei, privită prin ochii unui om care a rămas cu sufletul român, într-o ţară care a devenit a inimii lui.

Sursa: Cronica Satmareana

4.3.08

O romeno por trás do "Notícias Populares"

Este estar segredo do jornalo: distribuiçon!
Jean Mellé

Após ser confinado por Stalin durante dez anos nas minas de carvão da Sibéria, um jornalista romeno desembarca em São Paulo em 1959 para fugir dos fantasmas da perseguição comunista. Menos de cinco anos depois, acuado pelas próprias lembranças, o ex-preso político alia-se a um conservador parlamentar paulistano e cria uma arma para contra-atacar o Última Hora, jornal que ambos consideravam o grande veículo de propaganda esquerdista no Brasil.

Somente um improvável e quase ficcional enredo como esse poderia explicar a origem do Notícias Populares, o mais intrigante dos periódicos da história do jornalismo brasileiro. Desde seu lançamento, em outubro de 1963, a publicação sempre conviveu com a admiração do povo e com a perseguição dos eternos paladinos da moralidade. Estes finalmente alcançaram seu objetivo em janeiro de 2001, quando uma execução sumária, levada a cabo por uma decisão empresarial, acabaria por tirar definitivamente o velho jornal de circulação.

Nada mais que a verdade, livro de estréia dos jornalistas Celso de Campos Jr., Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Maik Rene Lima, publicado pela Carrenho Editorial de São Paulo, conduz o leitor em uma viagem pelos 37 anos de vida do polêmico periódico paulista, também conhecido por muitos como o "espreme que sai sangue".

O livro recupera também a biografia do romeno Jean Mellé, o primeiro editor do Notícias Populares. O jornalista romeno Jean Mellé passou 10 anos preso na Sibéria por ordens de Stalin, fazendo trabalhos forçados nas minas de carvão. Tudo porque, em 1947, soltou em seu jornal Momentul, de Bucareste, uma manchete contrária aos comunistas: "Russos estão roubando o pão do povo".

Após ser liberado da Sibéria, Mellé desembarcou no Brasil em 1959 sem falar praticamente nenhuma palavra de português. Mesmo assim, por intermédio de um amigo romeno que estava no Brasil, conseguiu um emprego no Última Hora do bessarábio Samuel Vainer.

Fonte: Carrenho Editorial e Observatório da Imprensa

9.7.07

Caragiale inédito no Brasil

A editora Thesaurus de Brasília acabou de lançar, pela primeira vez no Brasil, uma tradução em língua portuguesa, feita diretamente do romeno, da comédia Uma Carta Perdida (O Scrisoare Pierduta), de Ion Luca Caragiale. A tradução ficou a cargo do Professor Ático Vilas-Boas da Mota, um dos maiores especialistas brasileiros em literatura e cultura romenas.

Embora vários tradutores aleguem ser impossível traduzir a linguagem de Caragiale, o Professor Ático aceitou o desafio e a adaptou ao linguajar carioca, aparentemente muito aproximado do bucarestino.

14.5.07

Aparitie editoriala din 2006

Editura Albatros din Bucuresti a publicat, anul trecut, doua romane ale scriitorului brazilian Cristovam Buarque: Zeii subterani si Invierea Generalului Sanchez.

Cristovam Buarque s-a nascut la Recife, in anul 1944, intr-o familie de muncitori. Este licentiat al Universitatii Federale din Pernambuco. Urmarit in timpul dictaturii militare instalate in Brazilia la 31 martie 1964, s-a refugiat la Paris. Aici, a facut studii de Economie si si-a dat doctoratul la École Pratique des Hautes Études en Sciences Sociales. A revenit in Brazilia in anul 1979, unde a lucrat ca profesor de Economie la Universitatea din Brasília. In 1994, a fost ales guvernator al Districtului Federal. Cariera politica va culmina cu functia de Ministru al Educatiei sub actuala presedintie a lui Lula da Silva.

Zeii subterani este o opera de fictiune scrisa in maniera post-moderna, in care se regasesc deopotriva elemente specifice genului 'science-fiction' si teme eterne ale literaturii: dragostea, viata, moartea, arta - daruri ale 'zeilor' facute oamenilor - sunt intruchipate de personaje care amintesc de mitologie, de facerea lumii, de 'zeii subterani' care isi au lacasul in fermecatorul tinut al Braziliei, in apropiere de Mato Grosso. Trama acestei carti este incitanta si insolita.

Romanul Invierea Generalului Sanchez este o fascinanta si cutremuratoare parabola la adresa sistemelor totalitare, fiind marcat de specificitatea dictaturilor de tip sud-american, pe care autorul nu numai ca le-a cunoscut, dar pe care, ca intelectual, le-a denuntat, implicandu-se profund in trezirea constiintelor la adevarurile si libertatile democratice.

Cristovam Buarque aduce o critica nemiloasa societatilor abuzive, dominatoare, si artizanilor acestora, care permit aparitia si mentinerea celor mai aberante sisteme de guvernare.

Scris in traditia realismului magic caracteristic literaturii latino-americane, romanul are in centru figura Generalului Sanchez - personaj imaginar, dar perfect recognoscibil in realitatea politica a secolului al XX-lea din acea parte a lumii.

Îi multumim lui Adrian Manafu pentru informatiile furnizate.